O espólio da Nova República

MSIA Editoria 16/09/2017

O Estado brasileiro está ameaçado por uma falência múltipla dos seus órgãos vitais e os próximos governantes do País, sejam quem forem e em que circunstância assumirem, correrão o risco de converter-se em síndicos de uma massa falida, se não tiverem coragem e determinação para reverter boa parte das ações do governo atual e adotar medidas fundamentalmente contrárias às diretrizes prevalecentes, convertidas em dogmas pelos beneficiários do status quo.

Este é, sem risco de exagero, o espólio da Nova República, com o apodrecimento da sua insidiosa contrafação de democracia, eufemismo para a captura do Estado por uma casta autocentrada, egoísta, sociopática e predatória, cujo projeto de poder se limita a rifar o que resta do patrimônio do Estado e consolidar a hegemonia do setor rentista sobre a economia e a sociedade em geral, sem qualquer consideração para com as aspirações e necessidades da esmagadora maioria dos 207 milhões de brasileiros.

Não há outra interpretação possível para a assombrosa sucessão de eventos presenciados pelos brasileiros, nas últimas semanas.

A começar pela multiplicação dos sintomas da metástase da corrupção nas estruturas do Estado, em todas as instâncias federativas, estampada em fatos como a emblemática imagem das mochilas e caixas de dinheiro com R$ 51 milhões, encontradas num apartamento em Salvador (BA), ou a estarrecedora revelação de que o ex-governador de Mato Grosso, Silval Barbosa, pode ter desviado R$ 1 bilhão durante o seu único mandato, entre 2010 e 2014 (levando-se em conta as proporções econômicas entre os respectivos estados, é como se o esquema do ex-governador fluminense Sérgio Cabral tivesse desviado R$ 13 bilhões).

Em seguida, passa-se à liquidação do patrimônio público comandada pela tróica Planalto-Fazenda-Banco Central, com aplausos incondicionais da grande mídia (umbilicalmente dependente das verbas de propaganda do governo e de empresas envolvidas no contubérnio, como a JBS) e de setores da opinião pública iludidos pelo discurso simplório da ineficiência/corrupção/falta de recursos do Estado. A joia da coroa é a Eletrobrás, mas o leilão pretendido inclui usinas hidrelétricas da Cemig, o aeroporto de Congonhas, as ações golden share do governo na Vale, Embraer e Instituto de Resseguros do Brasil (IRB) e até mesmo a Casa da Moeda, além de outras mais de 40 empresas e projetos.

Curiosamente, Pequim, onde esteve para a recente cúpula do grupo BRICS, foi o palco escolhido pelo presidente Michel Temer para apresentar o cardápio com grande pompa. Como a China tem demonstrado um apetite voraz para participar da queima de ativos brasileiros (com investimentos de R$ 60 bilhões desde 2015), poder-se-á estabelecer a bizarra situação de que o Estado brasileiro acabe entregando boa parte do seu patrimônio ao Estado chinês.

A propósito, a China aumentou em 26% os seus investimentos em pesquisa científica e tecnológica – enquanto, por aqui, o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações (MTCIC) teve o seu orçamento cortado em 44%.

Sem mencionar os cortes análogos aplicados a todas as rubricas do orçamento federal – exceto ao sacrossanto serviço da dívida pública, o nirvana do rentismo brasileiro.

“Voltamos a ser colônia. (…) Não adianta discutir. Se o Brasil não voltar a se pensar 25 anos à frente, não vamos sair desse enrosco”, lamentou o ex-ministro Delfim Netto, num recente debate na Universidade de São Paulo (USP).

No mesmo debate, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo afirmou que a macroeconomia “virou uma forma de controle da sociedade, e não (serve para) explicá-la”.

Em síntese, é o futuro do Brasil que está sendo antecipadamente roubado à luz do dia.

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