Os Balcãs no jogo dos grandes impérios

 Professora Therezinha de Castro 15/08/2017 Copyleft
O ano de 1991 marcava o fim da geopolítica do confronto pautada no eixo Leste/Oeste, sustentado por alianças militares – OTAN e Pacto de Varsóvia.

Os países da “Cortina de ferro” e Balcãs, que há meio século dormiam em sono letárgico, começavam a acordar.

Na “Cortina de Ferro” o despertar geopolítico assistiu ao pacífico secessionismo da Tchecoslováquia, nos Balcãs ocorreria o desmoronar da Iugoslávia, uma federação de seis Repúblicas e duas Províncias, de modo bem violento.

Desmembramento que provocaria a maior vaga de refugiados na Europa, desde a 2a Guerra Mundial.

De acordo com o HCR ou Alto Comissariado para Refugiados das Nações Unidas, cerca de dois milhões de pessoas tiveram que abandonar suas terras até meados de 1992, deixando para trás uma cifra de mais de trinta mil mortos.

CARACTERIZAÇÃO GEOPOLÍTICA

Em turco “balcan” significa montanha. Deu origem ao topônimo Balcãs, designativo de uma península européia reunindo, por ora, oito países, aos quais se costuma juntar a Rumânia, mais caracterizadamente danubiana, e a Turquia Européia.

No norte, entre os mares Adriático e Negro, a Península Balcânica, a mais oriental no Mediterrâneo, forma um largo território contínuo; enquanto o contraste no sul vem por conta da ramificada Grécia com numerosas ilhas, vizinha do setor europeu turco.

Dos 767.119 km2 da Turquia, apenas 23.485 km2 estão na Europa. É aí que se encontram e entrecruzam as rotas marítimas/terrestres entre os mares Mediterrâneo/Negro e continentes europeu/asiático. O setor também conhecido como Ásia Menor ou Anatólia é banhado pelo Mar negro ligado pelo Estreito de Bósforo ao Mar de Marmara que, por sua vez, se conecta com o Egu via Dardanelos.

Esse espaço é de grande importância geoestratégica e, com a tomada de Bizâncio (atual Constantinopla) pelos turcos (1453) fechava o Mediterrâneo ao comércio cristão (especiarias) dos genoveses e venezianos, abrindo o caminho da conquista para o islamismo na Europa. Esse pequeno rincão na Europa foi o que restou, como parte integrante da Turquia, do vasto Império Otomano.

Na Península Balcânica o relevo montanhoso ocupa todo o interior. Do setor adriático os Alpes Dináricos se estendem até a Grécia com altitudes de quase 3.000 metros; na Bulgária a cadeia de montanhas já tem o nome genérico de Balcãs. Além dos Alpes Dináricos/Balcãs se estendem as planícies por onde correm o Sava/Morava/Danúbio
Nesse corredor plano se instalaram Zagreb/Belgrado/Bucarest, o sítio preferido para a movimentação dos exércitos que demandavam o Oriente via Mar negro.

A Rumânia, que nesse mar já possui um litoral bem maior, é elo de transição entre os setores central e oriental europeu. Detendo apenas a Valáquia, suas perdas territoriais foram de 66.000km2, ao entregar à Bulgária o setor meridional da Dobrudja e a Bessarábia para a União Soviética.

Os Balcãs se caracterizam como área geopolítica de ajustes territoriais, daí ter ficado bastante fragmentada, enquanto seu posicionamento a tornava bastante cobiçada, donde sua conquista e integração em grandes impérios.

Gregos, macedônios, romanos, godos, hunos, ávaros, eslavos, magiares, bizantinos, tátaros, turcos, venezianos, austro-húngaros transformariam os Balcãs num campo de batalha durante sucessivos séculos. Em conseqüência, o esfacelamento geopolítico seria a tônica nesta península de conexão Europa/Ásia. Daí o autêntico universo em miniatura coexistir na História dos Balcãs numa sucessão de povos que conquistam e são conquistados, corroborando para a implantação de um panorama étnico dos mais complexos.

ERA DOS GRANDES IMPÉRIOS

A Península Balcânica fez parte do Império Macedônico de Alexandre, integrou o Império Romano que se desfez com as invasões bárbaras dos hunos, godos, ávaros e, em especial, dos eslavos. Este últimos seriam os verdadeiros colonizadores dos Balcãs, formando um substrato que, pouco a pouco, iria se diferenciando em sérvios, croatas e macedônios, quando aí chegaram os búlgaros.

No contexto balcânico, a Albânia isolada na montanha seria o único território não atingido pelas invasões, descendendo hoje sua população dos ilírios dos quais conserva a língua com ligeiras influências latinas/gregas/eslavas.

No transcorrer da Idade Média a península não escaparia da dinâmica da queda e ascensão de grandes impérios. O primeiro seria dos búlgaros, hegemônicos na região até serem suplantados pelos bizantinos.

Entre os séculos XIII e XIV, caberia aos sérvios o destino da região, até a chegada dos turcos otomanos. Caberia a estes implantar a experiência inteiramente nova para os povos balcânicos cristinanizados. Enquanto os invasores anteriores acabavam sempre assimilados e convertidos, os turcos otomanos, fanatizados pela fé islâmica, tinham por objetivo converter. Os que não aceitavam o novo credo eram “infiéis” e, em conseqüência, os povos balcânicos passavam a ser estrangeiros em sua própria terra.

Assim, a ocupação islâmica ocorreria de forma diversa. Na Bósnia, Herzegovina e Albânia ocorreu a conversão em massa; na Bulgária, Sérvia e Macedônia, face à resistência, a antiga nobreza local seria afastada, cedendo lugar a uma casta turca no poder.

Transcorreram-se vários séculos até que se espalhassem pela Europa as idéias liberais da Revolução Francesa, coincidindo estas com os sinais de fraqueza no vasto Império Otomano, visto como “o homem doente da Europa”.

Os sérvios foram em 1804 os primeiros a se revoltarem contra a situação miserável e a tirania que a milícia turca dos janízaros lhes impunha. Mas foi a independência da Grécia e a perda da Bulgária (1878) que decretaram o declínio otomano, enquanto a Áustria e a Rússia tratavam de sua expansão nos Bálcãs.

POMO DAS DISCÓRDIAS

A complexa rivalidade de interesses impediria, até a 1a Guerra Mundial, que fosse traçado um mapa político racional nos Balcãs. Lá se encontrava um autêntico pomo de discórdia, levando Bismarck, Chanceler alemão, a vaticinar em 1897 que “alguma loucura nos Balcans” poderia deflagrar um conflito mundial. É que, protegido pela Rússia, também eslava, o pequeno Reino Sérvio era um grande perigo para o Império Austro-Húngaro, que em 1908 anexara a Bósnia-Herzegovina, subtraindo as regiões ao Império Otomano.

BALCÃS 1913

Mantendo a Sérvia sob sua influência, a Rússia insuflara os iugoslavos ou eslavos do sul a procurar formar a união dos estados balcânicos.


A 28 de julho de 1914 o herdeiro do trono austríaco Francisco Fernando, após assistir as grandes manobras das tropas na Bósnia, vai visitar Seravejo. Aí é assassinado por um estudante nacionalista bósnio, Gravilo Printzip, juntamente com sua esposa. Embora não tenha conseguido provas, o governo de Viena acusa a Sérvia de cumplicidade no assassinato do casal.

Resolve então eliminar a Sérvia como fator político. A Rússia protesta, pois com isso perderia sua influência nos Balcãs, deixando o campo livre para a Áustria.

O conflito austro-sérvio se transformava em austro-russo. A Alemanha colocava-se ao lado da Áustria, mostrando que o pan-germanismo se opunha ao pan-eslavismo. A França /Inglaterra, por força de sua aliança militar com a Rússia, entram no conflito que, aos poucos, iria se generalizando, para tomar o nome de 1a Guerra Mundial.

A guerra terminaria (1918) ocasionando o esfacelamento do Império Austro-Húngaro e o desmembramento do Império Otomano. Tudo levava a crer que está prestes a se realizar o sonho dos “eslavos do sul”.

Formava-se o Reino dos Sérvios-Croatas-Eslovenos, ao qual aderiam a Bósnia e a Dalmácia. A Albânia preferia a sua independência que proclamara em 1912. A Bulgária com governo fascista recebia parte do território da Macedônia que desaparecia, também repartida entre a Grécia e a Sérvia. Por sua vez, o Tratado de Trianon (1920) criava a Grande Rumânia avançando para o hinterland, mas com pequeno litoral no Mar Negro.

BALCÃS 1920

Os distúrbios não cessariam no Reino dos Sérvios-Croatas-Eslovenos. O pretexto era sempre atribuído ao ressentimento dos croatas católicos face à supremacia dos sérvios ortodoxos que dirigiam os destinos do novo país. Assim, em 1934, os fascistas da Croácia assassinavam o Rei Alexandre que tentava reestruturar o país, centralizando o poder com províncias sem raízes históricas e até mudando-lhe o nome para Iugoslávia.

POLÍTICA DOS EIXOS

Na ocasião já se esboçava nos Balcãs a geopolítica do confronto, estando de um lado o totalitarismo de esquerda do comunismo russo e, do outro, o totalitarismo de direita do nazi-fascismo ítalo-germânico.

Pela política dos eixos, os Balcãs se transformaram num “barril de pólvora” prestes a explodir até a 2a Guerra Mundial. Estava mais uma vez caracterizada a eterna dependência dos países balcânicos de características coloniais subdesenvolvidas atreladas às potências européias.

Desta feita, a importância geoestratégica dos Balcãs como elo entre o ocidente/oriente iria atrair a Itália.

No período que antecedeu a 2a Guerra Mundial, o regime fascista de Benito Mussolini estava interessado no outro lado do Adriático. Iria então procurar encorajar regimes direitistas na Bulgária, atrair a Albânia, que iria invadir em 1939, e auxiliar separatistas dentro da Iugoslávia.

Eram fascistas e comunistas se confrontando nos Balcãs, quando entram em cena Adolf Hitler e Joseph Stalin. Assinavam o Pacto Nazi-Soviético de 1939, definindo as esferas de influência em territórios balcânicos. Era interesse russo pôr fim à Grande Rumânia, subtraindo-lhe a Bucovina e Bessarábia perdidas, respectivamente, pelo Império Austro-Húngaro e Rússia, após a 1a Guerra Mundial. Contaria com o beneplácito da Alemanha, que só se interessava por um tratado comercial que lhe assegurasse o petróleo rumeno.

Esse Pacto iria envolver os Balcãs no conflito dos eixos totalitários de direita e esquerda, quando Hitler e Stalin passaram-se para campos opostos na 2a Guerra Mundial.

Durante o conflito, os russos ocuparam a Transilvânia húngara e parte da Dobrudja rumena, levando o governo de Bucarest a cerrar fileira com o nazismo, participando da invasão até Odessa.

A geoestratégia globalista dos nazistas incluía, além da Rumânia, também a Bulgária e a Iugoslávia para sua esfera de influência. Sobretudo porque os gregos, resistindo aos ataques de Mussolini, levavam Hitler a temer que os ingleses usassem a Grécia como “cabeça de ponte” para a penetração no continente.

Além de envolvida nesse jogo de guerra, a Iugoslávia enfrentava a crise interna com os adeptos do Príncipe Paulo, aliados dos anglo-franceses, sendo forçados a assinar um acordo com Hitler. Por isso, um golpe de estado elevava ao trono o Príncipe Pedro, filho do assassinado Rei Alexandre, sob o lema “antes a guerra do que o pacto”. Situação que redundaria numa investida fulminante das tropas do Eixo, em abril de 1941, e que só cessaria quando gregos e iugoslavos estavam submetidos.

A oposição iugoslava, é certo, havia atrasado a ofensiva nazista contra a União soviética, o que foi fatal para Hitler. Mas, em contrapartida, provocaria o desmembramento total da Iugoslávia, dividida entre a Alemanha/Itália/Hungria/Bulgária e a elevação da Croácia a Reino aliado dos nazistas (1941) que tratava de eliminar os sérvios e judeus.

Neste iniciar-se da guerra, os Balcãs e grande parte da Europa estavam em poder do Eixo. E caberia á Sérvia o mais efetivo movimento de resistência contra os nazistas. Ação inicial tomada pelos “tchetniks”, remanescentes do exército iugoslavo, refugiados nas florestas centrais sérvias, agindo dentro do sistema dos “baiduks”.

No entanto, sendo sérvios, esses “tchetniks” não teriam condições de atrair os outros povos da esfacelada Iugoslávia, que se mostravam temerosos e vulneráveis às intimidações e represálias nazistas.

Em conseqüência, a luta mais efetiva contra o Eixo só teria início em junho de 1941, em seguida ao ataque da Alemanha à União soviética. A resistência iria caber ao Partido Comunista Iugoslavo liderado por Josip Broz, mais conhecido pelo codinome Tito, com seus “partisans” acostumados à clandestinidade, agindo sob o sistema de guerrilhas em todo o país. Era, assim, um movimento nacional contrastando com o regionalismo dos “tchetniks”. Regionalismo que os tornaria inimigos dos “partisans”, levando-os a colaborar com os nazistas e seu comandante, o General Draza Mihailovic, a ser julgado e condenado após o término da guerra.

BALCÃS 1942

Em novembro de 1943 a resistência instituía um Conselho Antifascista de Libertação Nacional com representantes de todas as regiões iugoslavas, consagrando-se o princípio do federalismo, enquanto o líder dos guerrilheiros transformava-se em Marechal.

Caberia aos aliados dar apoio militar a Tito que, imobilizando quinze divisões alemãs na Iugoslávia, enfraqueceu a frente nazista balcânica.
Em outubro de 1944, as forças “partisans” e o exército russo conquistaram Belgrado. Realizava-se, mais uma vez, o sonho dos “eslavos do sul”, já que, em 1945, Tito ocupava o governo da unificada República Iugoslava.

A “GUERRA FRIA”

Com governo forte, escapando do divisionismo, a ação na Iugoslávia contrastaria com as dos países vizinhos.

A Albânia, por exemplo, possuía três frenets de ação – duas conservadoras e uma comunista; esta, porém, formada por pequenos grupos de intelectuais isolados. Caberia aos iugoslavos unir os grupos albaneses de esquerda, supervisionando a criação do Partido Comunista tendo como Secretário Geral Enver Hoscha, um professor de francês.
Em contrapartida, os albaneses ajudaram os iugoslavos a ultimar a derrota dos nazistas no Kosovo, o bastião defensivo da Albânia.

Graças a esse bastião, o isolamento geográfico da Albânia faria dela o único país balcânico não invadido pelo exército soviético ante a derrocada nazista. Invasão que ocorreria na Bulgária (setembro de 1944), após a tomada da Rumânia (agosto de 1944). Neste último país, o General Ion Antonescu, pró-Eixo, abrira suas fronteiras para que os alemães ocupassem a Iugoslávia e atacassem a União Soviética.

No reverso da medalha, seria a ação centralizadora da esquerda iugoslava o trunfo para que, em 1947, os países balcânicos estivessem quase todos incluídos na “Cortina de Ferro”.

A união Belgrado/Moscou seria efêmera. A Iugoslávia iria passar da ação à reação, levando para os Balcãs o estopim da discórdia sintetizado no lema “contra a vontade de Stalin, a vontade de Tito”.

O líder iugoslavo estava bem mais disposto em levar avante uma política externa agressiva: reivindicava territórios fronteiriços com a Áustria/Itália, derrotadas na guerra; criticava os comunistas franceses por não terem tomado o poder em seguida à libertação do país; procurava auxiliar os comunistas gregos a tomar o governo pelas armas.

Stalin pedira cautela aos comunistas franceses, pois reconhecia que a França estava bem mais afeita à órbita ocidental. Cedendo, sabia o líder soviético que poderia cimentar sua influência no setor leste-europeu, onde instalaria a “Cortina de Ferro”, peça importante para Moscou no jogo geopolítico de confronto no continente.

No entanto, os ataques mútuos e divergências de táticas entre os partidários comunistas e iugoslavos estavam enfraquecendo as bases do socialismo internacional, que transcendia as fronteiras nacionais. Por isso, a ofensiva stalinista vem no dia 28 de junho de 1948, com a publicação da Resolução do Kominform, órgão de informação dos partidos comunistas da “Cortina de Ferro”. Nesse documento vinha a exigência para que Tito se retratasse, ante a afirmativa de que os líderes iugoslavos estavam pensando erroneamente “que podem manter a independência do país e constituir o socialismo sem a União Soviética”. Incitava a insurreição, convidando “as forças sadias do Partido Comunista Iugoslavo a impor uma nova linha de direção”.

Era, na realidade, os Balcãs se transformando no ponto nevrálgico da ‘Guerra Fria”. E era justamente com a Iugoslávia, criando uma nova modalidade de esquerda que passava a se chamar eurocomunismo; dissidência apoiada na ajuda militar que os Estados Unidos dariam, em 1951, ao governo de Belgrado.

A dissidência que alcançava a Albânia (1961), afastando-se de Moscou para se aproximar de Pequim, já dissociada do Kremlim. Era a “Cortina de Ferro” sofrendo um recuo nos Balcãs, deixando escapar a valiosa saída para o Adriático.

Observando-se que a solidariedade foi mais forte na Iugoslávia entre os anos de 1948-1953, quando Tito, de pai croata e mãe eslovena, conseguiu impor, em torno da Sérvia, um compromisso multinacional.

A morte de Stalin (1953) abrandaria, em parte, a situação leste/oeste nos Balcãs; muito embora permanecesse o destino divisionista na península, com a Iugoslávia/Albânia afastadas do Kremlim, a Bulgária/Rumânia atadas a Moscou, a Grécia/Turquia aliadas ao Bloco Capitalista como membros da OTAN.

DESTINO DIVISIONISTA

No conjuntio balcânico, a Iugoslávia continuava a ser país complexo de vários povos conflitantes com o nacionalismo sempre no topo dos problemas.

Nacionalismo que gerava dissidências mesmo quando, planejando suas economias, as repúblicas se acusavam mutuamente. A Croácia com sua costa adriática atraindo turistas, reclamava suas divisas desviadas pela federação para outras repúblicas. A Sérvia justificava, já que os hotéis de turismo croatas haviam sido construídos com o dinheiro do conjunto, enquanto os alimentos consumidos iam de seus campos cultivados.

Por outro lado, a disputa Sérvia/Croácia estava ligada às línguas semelhantes, mas, enquanto os sérvios se valiam do alfabeto cirílico, professando a religião ortodoxa, os croatas mantinham a fé católica e escrita latina. Em conseqüência, a Croácia, ainda durante o período da “Guerra Fria”, procurou levar sua autonomia às últimas conseqüências; eram constantes suas reivindicações ao governo sediado em Belgrado, que, sabendo os croatas ser a capital da Sérvia, viam-na como símbolo da proteção federal aos sérvios.

O secessionismo levaria o Marechal Tito a aplicar a política da autogestão, anulando a descentralização e mascarando a autonomia regional. Política que era justificada por Tito – “não se trata de atrasar os ponteiros do relógio e sim de caminhar para a frente”; daí o restabelecimento do papel da Liga Comunista como o guia mais efetivo da nação, já que a Iugoslávia era país socialista.
No entanto, a despeito do sistema forte, o país que não era uma nação caminharia em ziguezague, tanto no contexto político como no econômico, situa~çao que se deterioraria ainda mais após a morte, em 1980, de Tito, o herói legendário.

Em 1990 a Iugoslávia não escaparia ao “efeito Gorbatchov” que, na tarde de 25 de dezembro de 1991, não tinha mais a bandeira vermelha da foice e do martelo a tremular no Kremlim, onde fora substituída pela mais conservadora tricolor. Era a “primavera de Moscou”, que em 1968 tentara estrangular a ‘primavera de Praga”.

A implosão do regime comunista da União soviética teria seus reflexos nos “satélites”. Moscou teria que se conformar com a periferia ou “Cortina de Ferro” se libertando de seu centro de poder, enquanto Belgrado não podia deter o embate da “Primavera da Croácia e Eslovênia”, regiões que, com a Voivodina, são as mais ricas do norte, contrastando com o subdesenvolvimento muçulmano-sérvio da Bósnia-Herzegovina, onde a questão iugoslava tomaria as cores de verdadeira tragédia.

O secessionismo iugoslavo iria começar em 25 de junho de 1991, com a proclamação da República da Croácia e Eslovênia independentes do federalismo de Belgrado; atos que a geoestratégia de uma melhor saída para o Mar Adriático levariam ao reconhecimetno imediato oficial tanto da Áustria como da Hungria.

Impunha-se o “efeito dominó”, pois, em 15 de outubro de 1991, a maioria croato-católica e a muçulmana se posicionaram contra a Sérvia e a favor da soberania da Bósnia-Herzegovina. Após quarenta e três meses de guerra, em 1995, o Acordo de Dayton punha fim ao conflito; a Bósnia-Herzegovina era dividida em duas entidades de base étnica – a República Sérvia da Bósnia e a Federação Muçulmana Croata. De acordo com o plano de paz, os Estados Unidos e a União Européia administram a área conflagrada para forçar, lentamente, a evolução democrática, até que os partidos políticos de motivação étnica percam o apoio e desapareçam.

Em 15 de julho de 1992 era a vez da República da Macedônia obter a separação, muito embora sem o reconhecimento internacional. É que o Conselho europeu reunido em Lisboa (27 de julho de 1992) vincularia o reconhecimento do novo país à mudança do nome, acatando a posição grega que mantém parte da Macedônia dentro de seus limites.

Em 1998 o Kosovo tentava sua saída da federação, obrigando a intervenção armada do Governo de Belgrado e subseqüente ameaça da intervenção da OTAN para um cessar-fogo. A trégua (outubro de 1998) pôs a questão em compasso de espera. Em nome da ELK (Exército de Libertação do Kosovo), Baduhl Mahmuti aceitou a trégua, desde que os Kossovares obtivessem, em três anos, a independência total e não a simples autonomia dentro da Iugoslávia.

Quanto à formação da Grande Albânia de união com o Kosovo (de maioria albanesa), poderá não agradar ao esquema regional, pois traria reflexos sobre a minoria albanesa que vive na Macedônia e Grécia.

Donde se deduzir ser substancial o envolvimento do Governo de Atenas nos acontecimentos Kosovo/República da Macedônia/Albânia. Sabe a Grécia que poderá contar com a União Européia/OTAN, graças ao seu posicionamento privilegiado no Mediterrâneo Oriental, com costa digitada e múltiplas ilhas – trampolins, controlando rotas marítimas no extremo meridional da Península Balcânica.

CONCLUSÃO

Igualmente Província Autônoma como o Kosovo, a Voivodina poderá vir a reduzir inda mais os limites da Iugoslávia hoje formada pelas Repúblicas da Sérvia e Montenegro.

Caso venha a se concretizar o secessionismo da Voivodina, um outro impasse poderá surgir pela continuidade geográfica. É que a Voivodina, com capital Novi-sad, que os húngaros chamam de Ujvidek, nas margens do Danúbio, é continuação natural da “putzta”, a planície da Hungria.

Nessa fase de esfacelamento iniciada em 1991, o interesse de Belgrado é a salvaguarda dos interesses dos sérvios que vivem nas repúblicas secessionistas. Sabendo bem o governo de Belgrado que na República Socialista Federativa da Iugoslávia não houve jamais consciência de um destino comum.

A composição demográfica caracterizada por variada minoria é resultado da presença de povos que conquistaram e foram conquistados numa península que, por seu destino-passagem, englobaria um panorama étnico dos mais complexos.

Povos assimilados em alguns lugares, mas que, em outros, se segregaram, dotando os Balcãs de uma demopolítica dispersa.

Povos entre os quais têm destaque:

o os gregos, descendenets assimilados dos seus ancestrais ou cruzados com outros grupos;
o os albaneses relacionados com os antigos ilírios, usando a designação própria “shquiptare”, significando homem do país das águias;
o os valacos ou rumenos em constante nomadismo…
Aos quais se vieram juntar :
o os sérvios, autênticos eslavos chegados nos séculos VI e VII;
o os búlgaros de origem mongólica, porém fortemente eslavizados, vindos no século VII;
o os turcos otomanos invasores do século XIV;
Considerados os verdadeiros colonizadores dos Balcãs, os eslavos aos poucos se diferenciaram nos sérvios, croatas e macedônios. As constantes ondas migratórias levaram alguns desses povos a se acomodarem cercados por fronteiras geohistóricas, mas não políticas. Foi o caso dos macedônios, com seu habitat dividido entre Iugoslávia/Bulgária/Grécia, que preocupa hoje tanto a política do Governo de Atenas.

A Península balcânica tem uma área que não alcança a de nosso Sudeste, região natural brasileira constituída pelos Estados do Espírito santo, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro (927.286 km2).

Embora com sua História caracterizada pela violência internacional, nos Balcãs o culto pelo passado e velhas tradições serve de apoio a muitas nacionalidades.

A Bulgária é país de maiores afinidades com a Rússia, pois o alfabeto cirílico comum aos dois países atraiu sempre a elite búlgara a estudar em Moscou ou São Petersburgo. O “boro” é a presença viva do passado búlgaro, dança folclórica de grande agilidade como a dos cossacos, assemelha-se bastante ao “kolo” sérvio.

A “doina”, canção melancólica, assemelha-se às baladas líricas dos búlgaros, tal como o fado português.

Os trajes com bordados coloridos são comuns nos vários países balcânicos; mas é na Albânia que a “schupleta”, veste típica das mulheres, é considerado o mais antigo ainda em uso no mundo civilizado, acreditando-se que venha do período creto-micênico do segundo milênio antes de Cristo.

O passado e o presente históricos se interpenetram nos Balcãs de países com fronteiras em contínua mutabilidade, pois a Geografia condenou este espaço europeu a participar sempre do jogo geopolítico dos grandes impérios.

O esfacelamento do Império Otomano em fins do século XIX e começo do XX animaria os nacionalismos locais, manejados, muitas vezes, pelas grandes potências.

Nenhum domínio porém conseguiu unificar os Balcãs, muito embora cada uma dessas culturas exteriores tenha deixado aí sua marca.

A topografia abrupta e dificuldades de intercâmbio na região favoreceriam a resistência dos povos balcânicos.

Povos balcânicos, cuja complexidade etnográfica contribuiu para impor a base do regionalismo, o que, na prática, é tradicional em toda a Europa. Como as rivalidades locais são tenazes e inflamadas face ao sistema feudal ainda não liquidado, as interferências externas nada mais fizeram e fazem do que provocar conflitos internos nos Balcãs.

* A autora, renomada Professora e consagrada Conferencista das Escolas: ESG / ECEME / ECEMAR / ESAO / EAO / EGN, é reconhecida internacionalmente por seus inúmeros livros publicados sobre Geopolítica. Faleceu em fevereiro de 2000, em Lisboa, onde se encontrava proferindo uma série de palestras, a convite do Governo português.

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