Putin, Xi Jinping e parceiros na Nova Rota da Seda

Pepe Escobar 16/05/2017  – Copyleft
 História registrará o fórum Belt and Road-Pequim como o momento em que a Nova Rota da Seda, do século 21, concretizou o perfil completo de Globalização 2.0
REUTERS

A História registrará o fórum Belt and Road, em Pequim, como o momento em que a Nova Rota da Seda, do século XXI, concretizou o perfil completo de Globalização 2.0, ou seja, “globalização inclusiva”, como definiu o presidente Xi Jinping em Davos, no início deste ano.

Eu acompanhei a construção dos monumentais alicerces da empreitada. A terminologia, é claro, continua sendo um problema menor. O que antes era definido como One Belt, One Road (OBOR) agora é anunciado como a Belt and Road Initiative (BRI). Muito do significado da sigla ainda se encontra um pouco perdido na tradução em inglês, mas o que importa é Xi ter conseguido imprimir e embutir a miríade de possibilidades existentes nesse conceito, especialmente em todo o Sul Global.

Xi foi um anfitrião amável, em Pequim, “sem quaisquer restrições”, e exaltou os méritos inclusivos da integração de OBOR/BRI. E, em se tratando de China, ele também criou esta bela metáfora para ilustrar como o OBOR/BRI poderá encontrar sua força, num esforço comum, um esforço pan-Eurásia: “Os gansos selvagens de cisnes (encontrados em toda a Ásia, mas não na Europa) são capazes de voar longe e com segurança, através dos ventos e das tempestades, porque eles se movem em bandos e se ajudam como em uma equipe. ”

Sem dúvida, o membro-chave deste rebanho de gansos selvagens de cisnes passa a ser a Rússia.

O presidente Putin e o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, foram os convidados de honra no fórum – ao lado de líderes como Nazarbayev, do Cazaquistão, e Erdogan, da Turquia. Em uma discussão durante o café da manhã de negócios, Xi sentou Putin à sua direita e Lavrov à sua esquerda.

Em uma rodada do tipo rounders summit, no segundo dia do fórum – uma espécie de Silk Road das Nações Unidas, com os microfones abertos para todos falarem e se manifestarem – Putin tocou em um ponto-chave. A simbiose, formalizada desde 2015, entre a OBOR/BRI e a União Econômica Euro-asiática (EEU), formada atualmente pela Rússia, Quirguistão, Cazaquistão, Bielorrússia e Armênia.

Como afirmou Putin, “cerca de 50 Estados europeus, asiáticos e latinos- americanos” estão interessados %u20B%u20Bem cooperar com a EEU. Enquanto a EEU e a China estão discutindo seu próprio acordo comercial / econômico, a EEU também está consultando, entre outros, o Irã, a Índia, Sérvia, Cingapura e Egito.

Mas foi durante o seu discurso, na sessão inaugural do fórum, que Putin conseguiu destilar o que equivale a um extrato concentrado da política externa russa. Aqui estão os principais tópicos.

Através de “formatos de integração como EEU, OBOR, SCO (Shanghai Cooperation Organization) e ASEAN ( N.R. Association of Southeast Asian Nations), podemos construir as bases para uma parceria eurasiana maior. ”

Existe agora uma ” oportunidade única para criar um quadro de cooperação comum do Atlântico para o Pacífico – pela primeira vez na história.” Essencialmente, isto é o que o próprio Putin havia proposto antes – e depois evitado pela UE/ OTAN – mesmo antes de Xi anunciar a criação do OBOR, em 2013.

“A Rússia não está apenas disposta a ser um parceiro comercial confiável, mas também a investir na criação de joint ventures e de uma nova capacidade de produção em países parceiros, e investir em instalações industriais, vendas e serviços.”

A Rússia está investindo na construção de “um sistema de corredores de transporte modernos e bem conectados, ” ampliando a capacidade da linha principal do Baikal-Amur e da ferrovia Trans-Siberiana, e investindo recursos significativos em melhorias na Passagem do Nordeste. ”

E depois, tendo como alvo o Grande Panorama, ele diz que ” os projetos de infra-estrutura dentro da EEU e a iniciativa One Belt, One Road, em conjunto com a Passagem do Nordeste, podem re-configurar por completo o transporte no continente euro-asiático. ”

Putin espera que ” instituições financeiras recentemente criadas, como o Banco de Desenvolvimento (BRICS Development Bank) e o Asian Infrastructure Investment Bank dêem uma mão e um apoio aos investidores privados. ”

E por fim, o argumento decisivo, totalmente alinhado com a visão de Xi:  “A Grande Eurásia não é um arranjo geopolítico abstrato; sem exagero, é um projeto verdadeiramente civilizatório, voltado para o futuro.”
 
Comparado com a profundidade e a amplitude desta visão compartilhada, nada poderia ser mais superficial, mais lugar comum do que a atitude oficial da Índia. Não apenas enviando uma delegação de baixo nível a Pequim, mas passando para a mídia convencional a noção de que a OBOR/BRI é ” pouco mais do que uma empresa colonial [que deixaria] dívidas e comunidades quebradas em seu rastro “.
 
Este bando de gansos selvagens de cisnes voando em direção à integração da Eurásia é agora um fato indiscutível. A produção asiática do leste, nesta matéria, vai superar a America do Norte durante a era Trump. O futuro, a dissolução da hegemonia unipolar, será decidido na Eurásia, particularmente na Ásia Oriental.

A Índia, certamente, pode abrigar a sua própria agenda estratégica. Mas, manter-se à margem do principal e único projeto de desenvolvimento integrado no século 21 dificilmente pode ser qualificado como diplomacia experiente.

E parece que Putin mais uma vez terá seu trabalho facilitado. A Índia, parceira histórica da ex-URSS, mantém boas relações comerciais com a Rússia. O Irã, por sua vez, é um parceiro energético tão importante como a China. Assim, o mapa rodoviário que será desenhado mostra Moscou ao lado de Teerã, como mensageiros, go-betweens tentando puxarem a Índia para o caminho da integração da Eurásia.

Isso pode muito bem ocorrer no âmbito da Organização de Cooperação de Xangai (SCO), que de agora em diante teria a missão de tentar suavizar um possível processo de paz afegão, e certificar que Índia e Paquistão poderão encontrar uma entente cordiale política.

Um pouco como irmãos mais velhos tentando incutir algum sentido nos mais jovens – e a Rússia e  a China, como parte de sua parceria estratégica, já trabalharam duro para gerenciar a admissão gêmea da Índia e do Paquistão na SCO.

O Irã também logo se tornará um membro pleno. Assim, teremos em breve um SCO ativo do sudoeste da Ásia até o sul do continente, com uma agenda de integração político-econômica expandindo o impulso inicial para combater inúmeras manifestações de terror salafista – jihadistas.

Esta convergência progressiva, lenta, porém segura, se enquadra nos objetivos mais amplos da parceria estratégica Rússia-China, que, mais uma vez, tal como foi demonstrado durante o Fórum de Pequim, tem tudo a ver com a integração da Eurásia.

A história invisível neste Fórum de Pequim é a de que, tanto quanto a Turquia, que é um nó-chave do OBOR/BRI e o Cazaquistão outro nó-chave entre OBOR, BRI e EEU, é a China e a Rússia que irão, realmente, avançar no roteiro complexo deste “projeto-total-de-civilização “.

*Pepe Escobar, jornalista brasileiro, é analista geopolítico independente. Escreve para RT, Sputnik e Tom Dispatch. É colaborador frequente de sites e programas de rádio e TV desde os EUA ao Leste Asiático. É correspondente itinerante do Ásia Times Online.  Vive em Londres, Paris, Milão, Los Angeles, Washington, Bangkok e Hong Kong. Autor de Globalistan (2007), Red Zone Blues (2007), Obama faz Globalistan (2009) e Império do Caos (2014). Seu mais recente livro é 2030, Ed. Nimble Books/ dezembro de 2015.

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