Geopolítica no Oriente Médio e a guerra civil na Síria

Erwin Xavier  20/01/2017 Copyleft

Compreender a complexa e cambiante dinâmica das relações internacionais no Oriente Médio contemporâneo e da guerra civil síria, que se tornou um conflito indubitavelmente regional e ponto focal dos processos políticos, securitários e militares regionais, é tarefa árdua. A guerra na Síria, em particular, tem funcionado como nexo em torno do qual coalizões entre atores estatais e a mobilização de novos e militantes atores não-estatais na região tem ocorrido. Um bom – e talvez incontornável – ponto de partida, todavia, para mapearmos a dinâmica regional contemporânea e a guerra na Síria é o processo conhecido como a Primavera Árabe ou o Despertar Árabe.

A Primavera Árabe talvez seja o mais importante e inovador processo de mobilização popular não dirigida por tradicionais elites regionais ou nacionais do Oriente Médio em sua história contemporânea. Iniciado na Tunísia em fins de 2010, um movimento popular de protesto e crítica às elites e aos processos políticos locais e aos desmandos dos governantes e sua inépcia em promover políticas econômicas eficientes e mais inclusivas se espalhou como um incêndio pela região do Magreb, atingindo boa parte do mundo árabe e ajudando a desconstruir as tradicionais representações ditas orientalistas dos árabes como um povo avesso à democracia, medieval em seu fervor e fanatismo religioso, composto de cidadãos acomodados submetidos a governos insulados e obcecados com sua segurança e estabilidade (SADIKI, 2016).

Os movimentos populares da Primavera Árabe se utilizaram de distintos meios de comunicação, particularmente da internet, das redes sociais e da atuação relevante da rede al-Jazeera pela região para se alastrarem e produzirem maciços protestos contra governos que muitos acreditavam ser estáveis e impermeáveis às demandas da sociedade. Nesse processo, importantes movimentos populares vieram a se articular e a organizar vultuosos protestos no Egito, na Líbia, no Marrocos, na Síria e no Bahrein. No cômputo do processo, que se desdobrou a partir de 2011, regimes longevos vieram a ruir na Tunísia (queda de Ben Ali), na Líbia (queda e assassinato de Qaddafi), no Iêmen (queda de Salih) e no Egito (queda de Mubarak).

Em termos gerais, as mobilizações populares da Primavera Árabe conseguiram chacoalhar regimes e inspirar sociedades esperançosas de mudanças mais profundas, mas apenas na Tunísia conseguiram, através da derrubada do regime de Ben Ali, instalar instituições e um processo político que se assemelha ao que se considera no Ocidente como uma democracia, algo considerado por alguns analistas como sinal de seu fracasso.

Do ponto de vista geopolítico, as mobilizações populares árabes ajudaram a reestruturar as dinâmicas internacionais regionais, dando origem a uma nova ordem securitária regional que tem como cerne o que poderíamos considerar como dois dos desdobramentos principais daquelas mobilizações. Eles são, em primeiro lugar, o que poderíamos considerar como uma reedição do tradicional conflito entre repúblicas e monarquias no Oriente Médio; em segundo lugar, reemerge, desencadeado pela invasão estadunidense do Iraque, mas particularmente ampliado pela guerra civil síria, um conflito de caráter sectário marcado pela politização da oposição entre xiitas e sunitas no mundo muçulmano e no Levante em particular (CALCULLI com LEGRENZI, 2016; LYNCH, 2017).

A reedição do conflito geopolítico entre repúblicas e monarquias árabes tem sido descrita por alguns como uma nova “guerra fria árabe”, termo utilizado em referência às disputas por supremacia e aos conflitos do final dos anos 50 ao início dos 70 capitaneados pela modernizante república árabe nacionalista do Egito, liderada por Gamal Abdal Nasser, e a conservadora monarquia saudita. A Primavera Árabe teve como consequência a redinamização desse conflito porque as mobilizações populares no mundo árabe e seus efeitos foram particularmente atuantes e sentidos nas repúblicas da região. As monarquias do Golfo Pérsico, conservadoras, dotadas de amplos recursos minerais (petróleo) e, por extensão, financeiros, e que sustentam seu apelo à influência e legitimidade regionais se apresentando como bastiões na defesa de um Islã tradicional e conservador, atuaram intensamente contra a emergência de mobilizações populares em seus territórios e para o controle e direcionamento das mobilizações nos outros países da região.

O governo saudita, em particular, despendeu bilhões de dólares em benesses populares e medidas de extensão de alguns direitos para certos grupos de sua população (direito de mulheres de votarem e concorrerem em eleições municipais em 2015 sem autorização de tutores masculinos e de dirigir) para coibir impulsos de crítica e protesto (SADIKI, 2016, p. 329). Além disso, e conjuntamente com outras monarquias do Golfo, apoiaram a queda do governo eleito da Irmandade Muçulmana eleito no Egito através de golpe militar em 2013 e intervieram militarmente para apoiar as forças da monarquia bahreinita contra os protestos populares que lá emergiram e para bombardear enclaves dos rebeldes Houthi xiitas no Iêmen. O governo do Qatar, igualmente, tem despendido recursos financeiros e usado de sua ativa diplomacia regional e do alcance da rede de televisão al-Jazeera, lá sediada, para influir nos rumos políticos da região e buscar se apresentar como mediador regional. Nesse conflito, as monarquias do Golfo têm se sobressaído – em contraposição à alternativa modernizante e mais progressista que as repúblicas árabes já representaram –, buscando atrair e apoiar outros governos monárquicos ameaçados por mudanças na região, como o marroquino e o jordaniano, ainda que haja, por vezes, conflitos entre elas – como manifestados no apoio do Qatar à irmandade muçulmana na região e na oposição saudita à sua influência (CALCULLI com LEGRENZI, 2016).

O processo de politização ou até do que alguns chamam de securitização (Ibid) da clivagem sectária entre sunitas e xiitas no Oriente Próximo emergiu com a queda do regime de Saddam Hussein no Iraque, em 2003, e se ampliou e aprofundou com a transformação dos protestos populares na Síria, a partir de 2011, em uma guerra regional entre um eixo xiita e um sunita. A derrubada do governo de Saddam Hussein pelos EUA em 2003 veio acompanhada do desmantelamento do partido Baath iraquiano e das forças armadas do país num cenário de ascensão de um novo governo controlado por representantes da maioria xiita do país que, por vezes, decidiu “dar o troco nos sunitas” por anos de submissão e abusos.

O desmantelamento do partido Baath retirou uma alternativa secular supostamente progressista à política regional, ajudando a fortalecer, mais tarde, a influência das monarquias conservadoras; a desestruturação das forças armadas e sua inadequada e ineficiente reorganização provocaram uma militarização da sociedade iraquiana que, crescentemente tensionada por clivagens políticas, grupais e religiosas/sectárias, viveu uma guerra civil. A retirada do Iraque como contendor ao posto de líder regional, combinada com a ascensão dos xiitas no país pós-invasão de 2003, contribuíram para o fortalecimento do Irã e de um eixo xiita na região. Sunitas de várias partes do mundo muçulmano se mobilizaram para auxiliar os seus congêneres no Iraque, criando milícias e promovendo atentados; em contrapartida, o Irã e seus aliados regionais (o governo sírio e os libaneses do Hezbollah, principalmente), passaram a auxiliar os xiitas material e financeiramente e a promover a construção de milícias e o envolvimento de suas forças regulares no país.

Esse processo irá, a partir de 2011, se alastrar para a Síria. Nos anos 50 e 60, a Síria foi mais um títere ou país marginal no jogo político médio-oriental do que um ator propriamente relevante. Todavia, o golpe que conduziu o general Hafez Assad ao poder em 1970, em aliança com o primeiro e mais representativo partido socialista árabe da região, irá produzir frutos, estabilizando a política nacional e transformando o país num importante pólo nacionalista árabe e de resistência à existência de Israel na região. Os Assad são membros de um grupo religioso minoritário na Síria, que compõe uns 13% de sua população, chamado de alauita. Tradicionalmente considerados hereges, os alauitas foram considerados, a partir dos anos 70, como um ramo da comunidade xiita por um imã libanês, sendo assim geralmente tratados (Ibid, p. 227).

Os alauitas, após a ascensão de Hafez Assad ao poder, se converteram no grupo dominante da política e das forças armadas sírias, sendo apoiados por outros grupos minoritários, como cristão, curdos e drusos, que se sentem ou se sentiam protegidos sob sua tutela. Foi através de uma importante rede de alianças e de medidas econômicas socialistas e bens públicos fornecidos a diversos grupos do país que Hafez Assad consolidou o seu controle do país. Quando de sua morte, em 2000, decidiu-se por conduzir o seu filho, Bashar Assad, ao poder. Na tentativa de consolidar a sua legitimidade e deixar a sua marca, Bashar Assad decidiu promover reformas para modernizar o país e prepará-lo para algo que já se materializava – o esgotamento dos recursos petrolíferos do país e da renda deles oriunda. Muito criticado por diversos círculos, Bashar aboliu uma série de subsídios e benesses que o Estado sírio fornecia a uma diversa gama de cidadãos – de produtores rurais a mercadores urbanos –, provocando crescentes dificuldades econômicas e descontentamento em diversos grupos nacionais (HINNEBUSCH, 2017).

Quando o momentum da Primavera Árabe atingiu a Síria em 2011, os descontentamentos foram canalizados para protestos populares pacíficos, aos quais o governo respondeu com violência e brutalidade. No decorrer de alguns meses, grupos militantes foram se consolidando em sua oposição ao governo e em sua opção pela mobilização violenta. Emergia, então, uma guerra civil entre grupos rebeldes que agora demandam não apenas reformas, mas a retirada de Assad do poder, e os partidários do governo do outro lado. O apoio material, financeiro e de paramilitares iranianos e do Hezbollah logo se fizeram sentir, provocando, do outro lado, uma mobilização de sunitas sírios e de outros países contra o governo. Num período de seis meses, mais ou menos, o conflito sírio se converteu numa guerra regional entre um eixo que vincula o que alguns chamaram de “o crescente xiita” na região (o Irã, o governo sírio e os libaneses do Hezbollah, principalmente, podendo-se incluir os xiitas iraquianos) e um eixo sunita capitaneado por diversos grupos rebeldes apoiados principalmente por Arábia Saudita, Qatar, Turquia etc. (MELAMED, 2016; CALCULLI com LEGRENZI, 2016).

Três grupos principais de rebeldes podem ser identificados, sendo que apenas um deles, o Exército Livre da Síria, tem pretensões de converter o país numa democracia parlamentar representativa com garantias civis e liberdades mais amplas. O apoio e a intervenção militar russa no país têm auxiliado o governo a se sustentar apesar dos repetidos prognósticos de sua derrota (MELAMED, 2016). Ao fim e ao cabo, um número que se aproxima do meio milhão de sírios pereceu e alguns milhões se refugiaram em países vizinhos e até no continente europeu, gerando uma crise com profundas repercussões humanitárias e políticas. A guerra na síria se tornou o ponto focal da política médio-oriental contemporânea e, pelo que representa, parece ser mau augúrio para o futuro das relações internacionais na região e mais amplamente ao recolocar a Rússia contra o Ocidente neste cenário. Acompanhar os desdobramentos dessa crise política e humanitária é requisito para quem quer entender minimamente os rumos das relações internacionais dessa explosiva região e mais além.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CALCULLI, Marina com LEGRENZI, Matteo (2016). Middle East Security: Conflict and Securitization of Identities. In: FAWCETT, Louise (Ed.). International Relations of the Middle East. Oxford: Oxford University Press, 2016, 4ª edição.

HINNEBUSCH, Raymond (2017). Syria. In: LUST, Elen (Ed.). The Middle East. London: CQPress, 2017, 14ª edição.

LYNCH, Marc (2017). International Relations. In: LUST, Elen (Ed.). The Middle East. London: CQPress, 2017, 14ª edição.

MELAMED, AVI (2016). Inside the Middle East: Making Sense of the Most Dangerous and Complicated Region on Earth. New York: Skyhorse Publishing, 2016, cap. 6.

SADIKI, Larbi (2016). The Arab Spring: the ‘People’ in International Relations. In: FAWCETT, Louise (Ed.). International Relations of the Middle East. Oxford: Oxford University Press, 2016, 4ª edição.

Erwin Pádua Xavier é professor Adjunto do Curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

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