A Rússia, as relações com a Turquia e os efeitos sobre o conflito na Síria

Diego Pautasso   18/01/2017  Copyleft

O protagonismo russo no conflito na Síria representa uma mudança substantiva de sua atuação internacional, notadamente no Oriente Médio. Desde a Guerra Iraque Kuwait (1991), passando pelas subsequentes intervenções no Afeganistão (2001), Iraque (2003) e Líbia (2011), no quadro da Guerra Global ao Terror, os EUA não encontravam o ativismo de uma potência desafiante na região. Nesse sentido, a guerra na Síria é um campo de provas da nova distribuição de peças no tabuleiro geopolítico do Oriente Médio, cuja aproximação da Rússia com a Turquia representa uma jogada chave para os desdobramentos da partida.

A Turquia é um ator central para a dinâmica geopolítica do Oriente Médio. Mas sua importância é proporcional aos interesses contraditórios que permeiam sua inserção regional. Por um lado, este país tem sido um histórico aliado ocidental, membro decisivo da OTAN desde o período da Guerra Fria, com papel chave no controle do Estreito de Bósforo e do acesso soviético/russo ao Mar Mediterrâneo. Com a guerra na Síria desencadeada a partir da Primavera Árabe (2011), o governo turco fez parte do apoio à insurgente oposição ao governo de Bashar al-Assad, convergindo com a atuação dos EUA e seus aliados ocidentais, de Israel, das monarquias do Golfo Pérsico lideradas pela Arábia Saudita e Qatar em torno do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG). Mesmo com o advento do Estado Islâmico/Daesh, era de conhecimento público que o contrabando do petróleo que financiava o jihadismo se utilizava do território turco, beneficiando ainda o governo de Ancara ao travar luta tanto contra Assad quanto contra os separatistas curdos. Em outras palavras, a Turquia vinha sendo elemento importante do eixo OTAN-CCG no tabuleiro do Oriente Médio e da guerra na Síria.

Por outro lado, a derrubada de um caça russo em novembro de 2015 na fronteira da Turquia com a Síria começou a alterar o quadro político. Ao invés de uma imediata retaliação russo, Putin foi resiliente e não ‘mordeu a isca’. O objetivo era provocar o recrudescimento das animosidades bilaterais e ampliar o cerco e a contenção da Rússia, conformando um arco Ucrânia-Turquia-Geórgia. A tentativa de golpe contra Erdogan em julho de 2016 com provável anuência estadunidense intensificou a aproximação bilateral, pois tudo indica que a inteligência russa informou as autoridades turcas das movimentações golpistas, além de prestar solidariedade após o fracasso dos militares. Na mesma direção, é nítido, como destacou Putin, que o assassinato do embaixador russo na Turquia, Andrei Karlov (19/12), é tentativa de implodir o processo de paz na Síria e sabotar a normalização das relações entre Moscou e Ancara.

A Turquia está diante de uma encruzilhada. Primeiro, a histórica rejeição de Bruxelas ao ingresso do país na União Europeia, cujo pleito remonta a 1987 e, desde então, outros 16 países se somaram ao bloco europeu. Constrange o governo turco a pressão europeia em temas sensíveis, como a ocupação militar do Chipre, a repressão aos curdos e a crescente islamização do país. Segundo, os EUA têm dado sinais há tempo de desconforto com o governo turco, de modo que o apoio estadunidense aos islamitas do FETÖ (Organização Terrorista Fethullahista) vinha ocorrendo antes do golpe de julho de 2016. Por fim, o crescimento do Estado Islâmico tornou-se disfuncional para a Turquia, tanto pelos recorrentes atentados quanto pelo crescente protagonismo indireto da Arábia Saudita na região.

Esse movimento de atração da Turquia fortalece o eixo Rússia-Irã no conflito na Síria. Ressalte-se que desde que a Rússia decidiu fornecer apoio político e militar à Síria em setembro de 2015, a ingerência ocidental foi neutralizada evitando que o país tivesse o mesmo destino da Líbia. Mais do que isso: garantiu a manutenção de Assad, a integridade política e territorial síria, o combate ao Estado Islâmico e a diminuição da crise humanitária. Dessa forma, o giro da política externa turca pode estar levando em conta diversos fatores. Primeiro, o crescente poder do governo sírio e de seus aliados no conflito, sobretudo depois do controle de Aleppo. Segundo, o possível apoio russo em seus conflitos territoriais. Terceiro, a importância da Rússia para que a diplomacia turca se projete para a Ásia Central turcófona (Uzbequistão, Cazaquistão, Quirguistão e Turcomenistão) herdeira da URSS e ainda sob influência de Moscou. Por fim, a Turquia depende da diplomacia russa e iraniana para consolidar seu papel como entroncamento de oleogasodutos na região (pois sem a Síria o projeto do Qatar se inviabiliza, diferente dos projetos russo-iranianos).

Enquanto isso, os EUA e seus aliados ocidentais se deparam com os efeitos de suas políticas externas erráticas. A obcecada política de política de regime change não logrou derrubar Assad por meio da guerra por procuração; financiou o jihadismo (embora a propaganda trate como ‘oposição moderada’, cujo o nome da organização e as lideranças permanecem desconhecidos…) fomentando atentados terroristas pela Europa; atraiu a Rússia para o terreno do conflito e potencializou sua influência na região; provocou uma gigantesca migração para Europa; e agora corre o risco de empurrar a Turquia para a órbita russa alterando a dinâmica política do Oriente Médio. Detalhe: Erdogan já ameaçou restringir o acesso dos EUA à base aérea turca Incirlik. Enfim, o apoio ao jihadismo e a Guerra ao Terror são duas faces da mesma moeda: uma política estadunidense de alto risco, cuja suposta racionalidade subestima tanto a passionalidade excepcionalista como a capacidade de controle de seus múltiplos efeitos. Inegável que há um trabalho complexo para a diplomacia dos EUA agora sob a batuta de Trump.

Embora permeado por incertezas, os destinos da aproximação Rússia-Turquia e a recente tomada de Aleppo em dezembro de 2016 por Assad e seus aliados sinalizam não só um cenário um pouco mais promissor para o conflito na Síria quanto uma potencial alteração nos alinhamentos e na correlação de forças da região. Deve-se considerar que isso influencia a dinâmica de integração da Eurásia, sob patrocínio chinês através do projeto OBOR (One Belt, One Road). Ou seja, o eixo político sino-russo – e suas organizações como Organização para Cooperação de Xangai e União Econômica Eurasiática – são também grandes tributários dos desdobramentos desses conflitos no Oriente Médio. Em suma, o conflito na Síria é uma jogada importante no Oriente Médio que, por sua vez. É crucial para a Eurásia e para o ordenamento internacional. É isso que está em jogo.

Diego Pautasso é doutor e mestre em Ciência Política, professor de Relações Internacionais da UNISINOS, autor do livro China e Rússia no Pós-Guerra Fria, editora Juruá, 2011. (dgpautasso@gmail.com).

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