EUA preparam sua maior operação militar na Europa desde a Guerra Fria

MARÍA R. SAHUQUILLO   02/12/2016 Copyleft

País tenta frear o expansionismo russo na região eVários soldados preparam um tanque para transportá-lo para a Europa, em Fort Carson (Colorado), em 2 de dezembro. ANGE DESINOR US ARMY

Colorado Springs 1 JAN 2017 – 16:41 CET

Cerca de 20 veículos de combate Bradley, limpos demais para terem circulado recentemente, aguardam sob o frio sol do Colorado (EUA). A poucos metros, em um enorme pátio perto de Cheyenne, uma das Montanhas Rochosas, o capitão Musk passa em revista um grupo de contêineres coloridos carregados de material militar. Dentro de poucas semanas, os veículos blindados e os imensos depósitos metálicos estarão em solo europeu. Assim como os quase 4.500 soldados norte-americanos procedentes da base de Fort Carson, que serão posicionados a partir de janeiro nos países do Leste Europeu, incluindo as nações bálticas. Este é o maior deslocamento de tropas norte-americanas e armamento pesado na Europa desde a Guerra Fria. Tem por objetivo reforçar a região diante do expansionismo russo e mostrar o compromisso de Washington com seus aliados da OTAN.

O início da missão coincidirá com a chegada à Casa Branca do novo presidente, Donald Trump, que não apenas questionou a responsabilidade dos Estados Unidos com a aliança militar atlântica mas também tem inquietado muito seus parceiros que fazem fronteira com a Rússia por causa de sua afinidade com o presidente Vladimir Putin. Mas em Fort Carson – que o EL PAÍS visitou a convite da missão norte-americana na OTAN – nem Musk, com seu luminoso sorriso de jovem americano, nem seus superiores fazem cara feia para a postura do republicano. “Nada mudou. O compromisso e o ânimo das tropas é exatamente o mesmo”, afirma, sério, o sargento-major David Gunn. Seu objetivo, segundo o tenente-coronel Stephen Capehart, é triplo: verificar sua competência para lançar na Europa uma brigada blindada, reforçar a capacidade de trabalhar com as forças aliadas e “contribuir para a defesa coletiva frente a toda ameaça”.

E essa ameaça é a Rússia. No jargão militar e da OTAN dizem que o propósito da missão é “tranquilizar” os membros da Aliança na região, antigos membros da União Soviética e países satélites: Polônia, Estônia, Letônia, Lituânia, România, Bulgária. Mas “tranquilizar” quer dizer, basicamente, dissuadir o Kremlin das tentações de violar a integridade de qualquer um desses Estados após a anexação da Crimeia pela Rússia e a guerra no leste da Ucrânia, que terá seu terceiro aniversário em fevereiro. A missão é também uma demonstração de força do Exército norte-americano, que, além de seus soldados, levará ao território europeu mais de 2.8000 veículos militares – incluindo os agora adormecidos Bradley, mais de 80 tanques e vários trailers – e milhares de armas de fogo.

Em Fort Carson, é hora do terceiro batalhão de combate da 4a brigada de infantaria – o que foi destacado para a Europa – fazer seu treinamento indoors. E os soldados desse que ficou conhecida como Brigada de Ferro provavelmente agradecem. São 6h e o termômetro não passa dos 12 graus negativos. No ginásio, em ritmo de música bate-estaca, o tenente David Hart levanta pesos. Mesmo assim, sua camiseta do Exército americano continua limpa. “A segurança europeia é nossa segurança”, afirma. Alto e com os cabelos bem curtos, esse especialista em engenharia de 29 anos conta que todo o batalhão viajará para a Polônia para depois se deslocar, por companhias, pelo resto dos países da região, onde farão treinamentos junto com as tropas aliadas no que serão os maiores exercícios da história recente da OTAN.

Início da missão coincide com a chegada de Trump à Casa Branca, que questionou a responsabilidade dos EUA com a OTAN e tem inquietado muito seus aliados pela afinidade com Putin

Hart será posicionado na Romênia. A soldado Abrianna Archuleta ficará na Polônia. Aos 18 anos, é a mais jovem da brigada. Pequena, mas forte, Archuleta foi campeã de luta livre em seu Estado, o Novo México, antes de se alistar, logo depois de concluir seus estudos. É especialista em sistemas de dados táticos e uma das primeiras mulheres na equipe de artilharia de primeira linha. Quer ser enfermeira. Assim como seus companheiros, permanecerá nove meses em seu destino, rotatório. A rotação foi a fórmula encontrada pela OTAN para evitar a proibição acordada com a Rússia de estabelecer bases aliadas permanentes nos países do antigo Pacto de Varsóvia. A missão no Leste Europeu é a primeira de Archuleta. É também a primeira vez que ela vai sair dos Estados Unidos. “Estou muito emocionada”, admite, com um ligeiro sorriso. Não pode dar detalhes técnicos sobre sua função na Polônia, mas ressalta que a missão da Brigada de Ferro, quase centenária, é “ajudar a manter a paz”.

Um soldado acomoda o equipamento para a operação na Europa, em Fort Carson.ampliar foto
Um soldado acomoda o equipamento para a operação na Europa, em Fort Carson. A. DESINOR

O deslocamento – que tem um orçamento de 3,4 bilhões de dólares – é, até certo ponto, controverso. Não só pela postura do presidente-eleito em relação aos países de destino, a quem ameaça deixar de defender (como estabelece o artigo 5 da OTAN) caso não receba um aumento para o orçamento da Defesa. Há também quem acredite que as manobras são uma certa provocação à Rússia, como o ministro do Exterior alemão, Frank-Walter Steinmeier. O especialista em segurança Paul R. Gebhard, analista dathink tank Atlantic Council, discorda. “Quantos países a Rússia – que mudou suas fronteiras várias vezes nos últimos anos – terá que invadir para ser considerada uma ameaça?”, pergunta, com certa ironia.

Abrianna Archuleta.
Abrianna Archuleta. M. R. S.,

No Pentágono, o sub-secretário de Defesa dos Estados Unidos, James Townsend, já de saída do Governo, reconhece que após a invasão da Geórgia, em 2008, a Rússia foi subestimada. Algo que, destaca, não pode voltar a acontecer. Em Washington, diante de um pequeno grupo de jornalistas europeus, ele afirma que a nova missão – como as outras empreendidas na região – pretende assegurar que “a Rússia ou qualquer outro país” perceba, sem rodeios, que os membros da OTAN se defendem entre si.

O Pentágono, no entanto, não tem dados sobre a opinião dos norte-americanos sobre uma missão em países que muitos nunca ouviram falar, onde não há guerra e frente a uma ameaça que talvez não percebam. Em Colorado Springs, uma pequena enquete com os poucos habitantes que caminham sob a neve mostra um apoio esmagador. Mas a cidade, uma das mais conservadoras do país, reduto fervorosamente republicano em um Estado que apoiou Clinton nas eleições de novembro e capital das igrejas evangélicas, é também sede de quatro bases militares fundamentais. Não por acaso foi cenário do filme Jogos de Guerra.

Em Fort Carson, o sargento Matthew Venn, de 31 anos, finaliza os preparativos para seu deslocamento. Será a quarta missão desse ruivo do Kansas, depois de ter estado duas vezes no Iraque, e ainda no Afeganistão e no Kuwait, como comandante de tanques. “Agora não tem nada a ver. Como desta vez ele não vai para uma zona de conflito, estou muito segura e muitíssimo mais tranquila. Estou até com um pouco de inveja”, brinca, a seu lado, Theresa, sua esposa, veterana e agora professora de crianças especiais. O casal tem três filhos, ocupados com a tarefa de decorar uma das árvores de Natal da base. Apesar de, como os Venn, as famílias dos soldados não estarem tão inquietas com o posicionamento na Europa, o tenente-coronel Capehart insiste que não há diferença entre as várias operações. Assim como Townsend, para quem nenhuma missão é rotineira. “Não estão ali para um desfile militar. Não são uma guarnição. Não estão de férias. Estão ali para combater, se precisarem, embora esperamos que isso não aconteça”.

O SOLDADO DA SORTE VOLTA PARA CASA

Dimitar Dzherikarov com seus dois filhos.Dimitar Dzherikarov com seus dois filhos. M. R. S.,

Dimitar Dzherikarov ganhou seu Green Card na loteria. Sim, esse búlgaro de 32 anos, participou em 2014 do sorteio organizado pelo Governo dos Estados Unidos para obter o visto de residência permanente e conseguiu. Hoje é cidadão norte-americano e um dos soldados que participará do envio de tropas para o Leste Europeu. Casado e com dois filhos, Dzherikarov serviu no Exército búlgaro. Aliás, em 2005, foi enviado ao Iraque com o 5o batalhão da infantaria. Depois foi policial, até se mudar para os Estados Unidos. Assim que chegou, se alistou na Marinha. “Tive o sentimento de que queria devolver algo, que queria fazer alguma coisa para merecer estar aqui”, afirma.

De certa maneira, está agora voltando para casa, ainda que seu destino principal seja a Romênia. “Estou feliz por regressar à Europa porque sei quem é quem ali. Precisamos tornar nossas forças visíveis e mostrar quem são nossos amigos e que estamos ali por eles”, diz.

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