Colômbia: tentáculos do “governo mundial” ativos no acordo de paz

Silvia Palacios e Lorenzo Carrasco 02/12/2016 Copyleft

Santos corre contra o tempo para ter em mãos um acordo antes de 10 de dezembro, quando receberá em Oslo o Prêmio Nobel da Paz, ganho poucos dias após o rechaço popular ao acordo original. Além da motivação pessoal de alvar a sua biografia, diante da sua elevada rejeição popular, manifestada no próprio plebiscito, é manifesta a sua propensão a alinhar-se aos desígnios do Establishment anglo-americano. Pode-se até mesmo especular que tais círculos hegemônicos já lhe teriam acenado com uma projeção internacional pós-presidência, seguindo o exemplo do ex-presidente Cesar Gaviria Trujillo (1990-94), eleito secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), no período 1994-2004, e um guardião daqueles interesses oligárquicos (desnecessário acrescentar que é um entusiasta do acordo Santos-FARC).

Em seu segundo mandato, iniciado em 2010, Santos tem se esmerado em ostentar a sua afinidade com a agenda oligárquica do “governo mundial”, em detrimento da soberania de seu país e da região. Primeiro, abraçou a bizarra proposta de criação do chamado Corredor Triplo A, uma área de “proteção ambiental” de 1,3 milhão de quilômetros quadrados, abarcando partes dos territórios da Colômbia, Venezuela e, principalmente, Brasil, idealizada pela ONG Gaia Amazonas, integrante da poderosa rede ambientalista-indigenista controlada pelos escalões superiores do Establishmentanglo-americano.

Outra evidência é a própria premiação de Santos, apesar da rejeição popular do acordo original e de a nova versão ter ignorado algumas exigências razoáveis dos seus opositores. Curiosamente, o Nobel da Paz é outorgado pelo governo da Noruega, igualmente integrante do grupo negociador do acordo original.

Ademais, fazem-se pomposos preparativos para uma grande reunião internacional de vários vencedores do prêmio, em fevereiro próximo, no qual a capital Bogotá será proclamada Cidade da Paz. O evento, a 16ª reunião do gênero, é organizado periodicamente pela Secretaria Permanente da Cúpula Mundial de Prêmios Nobel da Paz, com a participação de notórios líderes sociais, empresariais e políticos. Entre as personalidades confirmadas, incluem-se 16 ganhadores do prêmio, como o ex-presidente estadunidense Jimmy Carter, o ex-presidente soviético Mikhail Gorbachov, o ex-presidente polonês Lech Walesa, o ex-presidente sul-africano Frederik de Klerk, o ex-premier irlandês David Trimble e outros.

No circuito Londres-Washington

Após o inesperado revés no plebiscito de outubro, Santos realizou uma peregrinação pelos núcleos do poder anglo-americano, enquanto os negociadores do acordo iniciavam uma nova rodada de conversas em Havana, Cuba, para estudar os pontos cuja modificação ou esclarecimento eram exigidos pela oposição.

No início de novembro, viajou à Inglaterra, convertendo-se no primeiro mandatário colombiano a realizar uma visita de Estado ao país. Programada para discutir assuntos políticos, comerciais e econômicos, o seu ponto alto foi um entendimento para que a empresa petrolífera BP explore petróleo e gás natural na plataforma continental colombiana, com o que se espera uma recuperação das reservas do país, que, no caso do petróleo, encontram-se no seu nível mais baixo desde 2010. Tratando-se de uma visita de Estado, não poderia faltar um encontro com a rainha Elisabeth II, a quem devem comprazer as propensões de Santos às ideias do “governo mundial”.

Devido à rejeição popular do acordo, Santos teve que limitar-se a descrever as dificuldades para a sua aprovação, afirmando que a cidadania havia sido surpreendida por uma campanha de mentiras, acusação que causou indignação nas esferas políticas colombinas.

Duas semanas depois, Santos visitou os EUA, alegadamente, para submeter-se a exames médicos referentes a uma possível recorrência de um tumor já operado. Mas a oportunidade foi aproveitada para realizar compromissos políticos, em torno do futuro acordo de paz que estava sendo negociado em Havana.

Em Washington, ele condecorou o vice-presidente Joe Biden com a Cruz de Boyacá e se reuniu com importantes membros do Congresso. Mas o mais significativo foi o Prêmio de Liderança para as Américas, que lhe foi concedido pelo notório Diálogo Interamericano (DI), entidade cujos quadros já integrou como vice-presidente do conselho diretor. Como se sabe, o DI, criado pela família Rockefeller e outros próceres anglo-americanos, funciona como uma “mini-Comissão Trilateral” para o Hemisfério Ocidental e, desde a sua fundação, em 1982, tem servido como um importante centro de formulação de políticas públicas para os países americanos, sempre seguindo as diretrizes emanadas das cúpulas oligárquicas.

Na oportunidade, Santos se defendeu:

Permitam-me explicar-lhes o que ocorreu no passado recente. Como sabem, em 2 de outubro, submeti ao voto o acordo assinado com as FARC, depois de seis anos de negociações. Eu não estava obrigado a fazê-lo, o presidente da Colômbia tem a faculdade de assinar tratados de paz, tal como está previsto na Constituição, e apresenta-lo ao Congresso, mas me pareceu que era o correto submetê-lo a um plebiscito. Mas aprendi a lição, porque nunca se sabe qual será o resultado do plebiscito.

Em seguida, afirmou:

Conseguimos avançar e fechar um novo acordo, no sábado passado, um acordo muito melhor. Incluímos mudanças substanciais e cremos que é um acordo que incorpora uma altíssima percentagem do que nos disseram os representantes do não, que eram coisas que lhes preocupavam ou às quais se opunham. Francamente, creio que, neste momento, temos um acordo muito mais amplo, que goza de um apoio muito mais amplo.

Entre exames e premiações, Santos também arranjou tempo para ir à sede da OEA, onde logrou que o órgão aprovasse por unanimidade uma declaração de apoio à nova versão do acordo de paz. Na ocasião, anunciou que este será solenemente respaldado em uma reunião internacional que se realizará em Cartagena, em 1-2 de dezembro, com a presença de vários líderes latino-americanos e do vice-presidente Biden.

Água no champagne

A despeito do novo convescote em Cartagena, Santos não tem qualquer garantia interna para ser coroado o campeão da paz, precisamente, porque as principais forças políticas colombianas (mesmo que diga o contrário aos seus colegas do DI) já se manifestaram contrárias aos aspectos de supranacionalidade implicados no acordo, em especial, quanto à formação da corte que julgará os crimes cometidos pelas FARC, entre os quais muitos de lesa humanidade, tendo as pressões já levado ao abandono da proposta de inclusão de promotores estrangeiros na mesma.

Não obstante, outros aspectos sensíveis para a soberania e cruciais para a estabilidade política do país ficaram de fora do novo acordo, já enviado ao Congresso Nacional. Um deles é o caráter narcoterrorista das FARC. Pelos termos do acordo, a vinculação do narcotráfico com os delitos políticos, caracterizando um crime conexo à rebelião, será aceita “em caso em que não tenha derivado um enriquecimento pessoal”, ficando, com isto, passível de anistia. Outro item é a participação política dos guerrilheiros, que foi mantida sem mudanças e constitui a principal objeção dos opositores, que rechaçam a presença de insurgentes culpados de crimes atrozes na vida pública antes de pagar por eles.

Um outro ponto polêmico – igualmente integrante da agenda do “governo mundial” – diz respeito à ideologia de gênero. Segundo a agência católica Zenit (25/11/2016), este item deflagrou uma campanha para a sua eliminação dos acordos, que reuniu mais de 21 mil assinaturas em menos de 24 horas. A petição pede que os acordos de paz não modifiquem a Constituição colombiana em aspectos relacionados ao gênero, à família e aos direitos dos seus integrantes, ao direito à vida do não nascido, autonomia dos pais na educação dos filhos, direitos de minorias ou de grupos historicamente discriminados, liberdade, religiosa, de cultos e de consciência.

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