É o seu dinheiro que sustenta o ISIS

ISIS! Fabrizzio Bonela Dal Piero Com a finalidade de entender de onde vem o capital investido nas ações terroristas do grupo do “Estado Islâmico” o texto faz uma breve e curta apresentação das possíveis formas de captação de recursos, da possibilidade de monitoração e do target para futuros ataques contra o grupo terrorista com a finalidade de desarticular e minar as ações e atividades praticadas operacionalmente contra o mundo. Uma reflexão econômica e financeira do clube corporativo do terror organizado. Um assunto que não é novo, em 2014 foi publicado um artigo onde já se abordava o financiamento criminoso no negócio da pirataria marítima global. O texto tinha o título: “Economia Pirata. A máquina financeira ilegal da pirataria naval e o valor real do lucro do crime naval e os seus novos investimentos!”. O artigo alertava para a tentativa de legalizar a origem do capital sujo, conquistado por meio de seqüestros, venda de drogas e atentados de toda a natureza. Seguindo essa linha de crime, de acordo com a Marine & Coastal Security Africa, somente ao longo do Corno de África a pirataria tem custado cerca de US$ 1,2 bilhões de dólares por ano, dados apresentados em 2013 na Conferência Africana de Marinha e Segurança Costeira na África do Sul. E por trás deste faturamento bilionário estão uma corporação igual às mais atuantes no centro de Wall Street. Neste caso específico, a pirataria naval se tornou uma atividade profissional que atingiu níveis operacionais jamais imagináveis para aqueles que ostentam o título de pirata. Há uma organização que vai desde a divisão de atividades até mesmo no uso de vários tipos de armas e transportes. Os ataques são lançados de navios maiores, não mais das praias, cada pirata pode estar portando rifles AK-47, metralhadoras PKM, RPG e em alguns casos as lanchas rápidas que são dispostas no mar do navio-mãe, podem possuir metralhadoras calibre ponto cinqüenta – uma arma com alto poder de destruição. Tem uma logística configurada para operar no mar de três a quatro semanas e buscam vítimas especialmente em uma área do oceano índico que tem cerca de 900 milhas náuticas, próximo à costa da Somália, especificamente para este grupo de criminosos analisados. Essa rede de piratas somalis pode ser dividida em dois grupos, norte e sul, e dividido em linhas do clã. O Daarood (norte) clã que opera no Mar Vermelho, no Estreito de Bab-el-Mandeb, no Golfo de Aden, no Mar da Arábia e no Golfo de Omã, JDRI • Jornal de Defesa e Relações Internacionais • http://www.jornaldefesa.pt Página 2 de 6 enquanto o Hawiye (clã do sul) opera no Mar da Arábia, Golfo de Omã e Oceano Índico. Apesar de terem a mesma origem, a Somália, suas ações e atividades se diferenciam com base em adaptações na logística de ataque e seqüestro. As estratégias de operações do Hawiye envolvem uma escala maior de ataque, geralmente com o dobro de lanchas rápidas e sempre navios suportes maiores. Essas ações criminosas, de acordo com o “Pirata Trails” estudo do Banco Mundial, o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime e a força-tarefa contra a pirataria marítima da Interpol são cada vez mais complexas e organizadas. O resultado desta profissionalização criminosa nos mares gira em torno de US$ 339 milhões a US$ 413 milhões de dólares, movimentados entre 2005 a 2012 de acordo com o Banco Mundial. Entretanto a quantidade exata é muito difícil de saber devido à maioria dos processos de pagamento de resgate feitos pelas companhias de transporte marítimo correm sob sigilo. Diante destes números, uma pergunta deve ser feita: para onde vai esse capital ilegal? Acredita-se que depois das despesas operacionais que podem incluir o pagamento de soldados de infantaria de baixo nível, cozinheiros, mecânicos, combustível entre outros gastos podem ser recolhidos entre 30% a 70% do valor total do resgate. Então, cabe fazer mais uma pergunta, para onde vai o lucro do crime? De acordo com diversos relatórios de riscos de agências governamentais e do setor privado, há indícios de que na maioria das vezes o lucro da pirataria naval está sendo aplicado para o desenvolvimento de novas milícias e na corrupção da política. Com isto, grupos criminosos, ora antes conhecidos como simplesmente piratas do mar, agora podem ser considerados sujeitos poderosos em terra, tudo conquistado pelo poder do dinheiro, que compra novos negócios e articula a política corrupta, principalmente no continente africano. Essa diversificação proporcionada pelo uso do dinheiro ilícito tem estimulado o próprio mercado da pirataria naval, com o surgimento de novas células ou “grupos de criminosos mais empreendedores” formados exclusivamente para praticar todo o tipo de crime. Na lista do portfólio diversificado do crime está o negócio de transporte, com destaque para o aluguel de embarcações para uso em ataques piratas; aluguel de caminhões de empresas construídas para facilitar o próprio transporte das mercadorias desviadas, de pessoas e do tráfico de todo o tipo; combustíveis – depósitos e postos com bombas para as embarcações e veículos são os mais comuns. Há ainda alguns exemplos de investimentos na área da agricultura e pecuária, em parte para fornecer alimentos para operações de piratas, segundo os principais relatórios. JDRI • Jornal de Defesa e Relações Internacionais • http://www.jornaldefesa.pt Página 3 de 6 Entretanto, dentre todos os investimentos realizados com o lucro do dinheiro da pirataria naval o mais ousado é os negócios configurados para dar fim, em partes, ao próprio meio de sustento, ou seja, a pirataria. A contra pirataria incrivelmente virou negócio dos próprios piratas. Há relatos de que alguns criminosos começaram a oferecer os seus serviços como consultores ou especialistas em pirataria, negociadores para vítimas e companhias marítimas que desejam recuperar pessoas e bens. Esses negócios, estruturados em verdadeiras empresas, ocupam espaço no mercado como qualquer outro negócio: fazem anúncios, emitem faturas e articulam-se sem puder ou rigor da lei, negociando em alguns casos diretamente com as vítimas. Para finalizar, existem ainda aqueles “empreendedores piratas” que investem seus lucros conquistados nos mares no negócio explícito da droga. O khat, família das Celastraceae, também conhecido como qat, quat, gat ou miraa, em somali: Jaad) é uma planta angiosperma, nativa das áreas tropicais da África Oriental e da península Arábica. O khat contém o alcalóide chamado catinona, um estimulante similar à anfetamina, que causa excitação e euforia. Em 1980 a Organização Mundial da Saúde classificou o khat como uma droga, que pode produzir uma dependência psicológica que varia de leve a moderada. A planta vem sendo, recentemente, alvo de organizações antinarcóticos como a Drug Enforcement Administration (DEA) norte-americana. É uma substância controlada ou ilegal na maioria dos países, entretanto em alguns países africanos é consumido a mais de mil anos como costume social. Na Somália, as importações de khatsomam chegam a centenas de milhões de dólares a cada ano. Essa droga tem como característica o tempo de vida útil do seu ingrediente ativo, geralmente 48 horas após a colheita, o que exige para o seu comércio de uma rede de distribuição rápida, o que pode justificar os investimentos em transportes de todo o tipo em toda a região africana. Além disto, o mercado de usuários cresce a cada dia dentro das próprias fileiras piratas, principais consumidores de khat, álcool, prostitutas e de pessoas traficadas. E o pagamento deste “lazer macabro” é financiado pelo próprio eventual pagamento dos resgates. Com isto, o ciclo do “dinheiro” nunca para, o que obriga constantemente a volta da origem do primeiro crime, que é a pirataria naval, pratica no mar. É de fato um círculo criminoso que não termina nunca. Quem está inserido no meio tem poucas ou quase nenhuma chance de se ver fora do mundo ilícito. E os “novos financiadores” não param por aqui. Os conglomerados piratas além de fazer suas fortunas triplicarem, com investimentos diversos em vários segmentos do mercado, estão apostando também na imagem pessoal. Muitos criminosos são considerados heróis em suas comunidades, o que permite o cultivo de uma aproximação que forja uma forte lealdade das populações locais, uma real ameaça de um poder paralelo que interfere diretamente em todas as nações do globo. No caso atual do ISIS, até o final de 2014 a organização radical lucrava principalmente com a venda de petróleo. Tanto no Iraque como na Síria, o grupo assumiu o controlo de regiões petrolíferas. E apesar dos confrontos, as unidades de produção permaneceram intactas ao ponto de os terroristas serem capazes continuar vendendo petróleo. De acordo com informações da revista Foreign JDRI • Jornal de Defesa e Relações Internacionais • http://www.jornaldefesa.pt Página 4 de 6 Affairs, nos últimos meses do ano passado, o ISIS chegou a produzir 44 mil barris por dia no Iraque e na Síria. De acordo com o Instituto Chatham House de Londres, estimativas alertam que o ISIS produz, atualmente, 50 mil barris de petróleo no Iraque e na Síria. O Ministério do Petróleo Sírio acredita em algo superior a 80 mil barris por dia. Lembrando que a produção do governo sírio é de apenas 17 mil barris dias. Então, diante do cenário, vale a pergunta: para onde vai o petróleo extraído? A resposta pode estar na afirmação do Embaixador da República Árabe da Síria no Brasil, Dr. Ghassan Nseir, durante visita a Curitiba, em dezembro de 2014, para se encontrar com a colônia síria da capital paranaense. Segundo ele, alguns países da União Européia estão comprando petróleo do Levante Islâmico – que afirmam combater. Trata-se de petróleo roubado da Síria. Diante desta possível realidade, o Conselho de Segurança da ONU proibiu a compra de petróleo em mãos de grupos terroristas no Oriente Médio, especialmente no Iraque e na Síria. Estão na lista, como grupos terroristas na região: o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL ou Daesh em árabe) e da chamada Frente Al-Nusra, vinculado a Al-Qaeda. Segundo fontes oficiais, elementos baaixista takfiríes do EIIL movimentam caminhões de petróleo bruto em Mossul, capital da província de Nínive, e na cidade de Tuz Jormato, a 210 quilômetros ao norte de Bagdá, capital do Iraque, e vendem para os curdos. O grupo de terroristas ligados ao EIIL, conta com bilhões de dólares e cerca de 15 mil mercenários, lutando em duas frentes, na Síria e no Iraque, que visa criar um país próprio entre esses dois países árabes. Os EUA já declaram sanções a quem comprar petróleo proveniente do terror. Entretanto, há estimativas oficiais de um patrimônio em petróleo diário em torno de um milhão de dólares. Quando há avanços do grupo terrorista, estas estimativas sobem para até 2 milhões de dólares diários em petróleo bruto. Com os últimos ataques aéreos promovidos contra as regiões de controlo do Estado Islâmico, em 2014, alguns especialistas e fontes estimam agora uma produção apenas de 20 mil barris por dia. Entretanto, no dia 3 de março de 2015, um grupo extremista tomou o controlo dos campos de Al-Bahi e Al-Mabrouk e agora estão a caminho de tomar o campo Al-Dahra, depois da retirada das forças que vigiavam estes locais, devido à falta de munição na Líbia, um Estado à deriva que é alvo pretendido pelo EI, de olho na produção de petróleo, antes em 1,6 milhões de barris por dia e agora para menos de 500 mil. JDRI • Jornal de Defesa e Relações Internacionais • http://www.jornaldefesa.pt Página 5 de 6 E isso já é um fato não de agora. Em outubro de 2013, o grupo terrorista Ansar alSharia roubou uma van com dinheiro do banco central em Sirte, que estaria transportando 39 milhões de euros. Agora, parece que o Ansa al-Sharia está se fundindo com o EI. No dia 25 de fevereiro de 2015, moradores de Sirte assistiram a uma longa carreata do Estado Islâmico na cidade. “Ninguém sabe de onde vieram subitamente tantos combatentes e armas”, diz um jornalista que mora em Misrata e pediu para não ser identificado. Ele teme que sua cidade natal possa se tornar o próximo alvo dos terroristas. Se isso acontecer, o EI estará realizando o anúncio que fez em dezembro de 2014. Quando pronunciou que iria estabelecer três províncias na Líbia: uma no leste, outra no oeste e um reduto no sul. Mas a pergunta ainda continua, para onde vai o petróleo extraído? Alguém está comprando, isso é um fato. E será que irão comprar ainda mais? Identificar os possíveis compradores para fazer um estrangulamento de receitas é o primeiro passo para dar um golpe no caixa do terror. Mas essa é só uma fonte de recursos. Entre as outras tantas fontes estão estimados 20 milhões de dólares resultantes de seqüestros realizados apenas em 2014. As faladas doações em dinheiro por parte de simpatizantes são quase um nada próximo a realidade conquistada com os negócios ativos provenientes da “legal” venda de ativos como, por exemplo, o petróleo das regiões saqueadas. E falando em saques, existe muito dinheiro sendo produzido com a venda de antiguidades saqueadas do Iraque. E não se enganem com a falsa imagem de destruição de peças antigas, produzidas pelo EI. Nada mais do que um simples teatro para camuflar uma real venda de peças antigas no mercado negro. Buscam mostrar uma imagem que na realidade não retrata o financiamento do terror praticado. Em Nimrud, uma autoridade iraquiana afirmou: “até agora, não sabemos até que ponto a cidade foi destruída”. Fundada no século 13 a.C, Nimrud é uma das jóias da era assíria. A cidade situada às margens do rio Tigre fica a cerca de 30 quilômetros a sudeste de Mossul, sob controlo dos insurgentes desde junho do ano passado. De acordo com a BBC, há contrabandistas faturando por peça de US$ 500 mil (cerca de R$ 1,4 milhão), algumas por US$ 1 milhão (R$ 2,8 milhões) “. É possível encontrar peças do ano 8.500 a.C. De acordo com Assaad Seif, arqueólogo e chefe de escavações da Diretoria Geral de Antiguidades de Beirute: “temos certeza, através de todas as fontes, que muitos objetos vão da Síria para a Europa, Suíça, Alemanha, Grã-Bretanha – e países do Golfo (Pérsico) como Dubai e Catar”, disse. Em Mossul, o Museu do Iraque estima que cerca de 15 mil itens tenham sido levados no caos que se seguiu à queda de Saddam Hussein. Como disse, para preservar a lucratividade do negócio do terror, roubaram as relíquias, os livros históricos e manuscritos de História Antiga que estavam dentro dos santuários, antes de começar a falsa demolição com escavadeiras. Além dos santuários, JDRI • Jornal de Defesa e Relações Internacionais • http://www.jornaldefesa.pt Página 6 de 6 também foi saqueada e destruída a mesquita do imã Muhsin, situada no leste de Mossul e perto do centro histórico da cidade. Ela foi construída no século V, na província de Ninawa, e foi restaurada e ampliada em 1959. Mais tarde, nos anos 80, grandes pátios foram construídos em seu ao redor. Outras atividades de financiamento são: contrabando de cigarros, medicamentos, telefones celulares e a venda de passaportes. Ao entrar no Iraque e na Síria, combatentes estrangeiros vendem seus passaportes por milhares de dólares. A venda do passaporte não só engorda os cofres da milícia, como tem valor político simbólico: o combatente deixa sua antiga identidade para trás. E o negócio continua. A milícia ainda vende mulheres yazidi raptadas. Relatos recentes indicam que o EI também está comercializando órgãos no mercado negro – buscados desesperadamente em muitos hospitais e clínicas. Além disso, o EI cobra impostos e taxas da população dos territórios que domina. Por fim, junte ao quadro citado acima, uma inegável ligação entre o ISIS e outros grupos terrorista estabelecidos, inclusive os que praticam os negócios da pirataria naval. Uma natural integração e intercâmbio do terror. Não é possível negar, o mundo está a ser servido, em algum grau de intensidade, por mãos de fornecedores criminosos e terroristas. A movimentação financeira passa as fronteiras dos desertos do oriente médio, os cantos mais escuros da áfrica ou mesmo as montanhas e cavernas do interior do mundo. Em algum lugar do planeta existe alguém vestindo terno da moda, dentro de instituições financeiras a negociar todo o tipo de coisa. Quem são essas pessoas, quais movimentações financeiras realizam, por quais contas, em quais bancos? Essas são apenas algumas perguntas que precisam de respostas. Para combater o terrorismo de forma efetiva, é preciso primeiramente secar as fontes do financiamento estrangeiro ao terrorismo e de quem o financia, evitando, desta forma, a sua continuidade. E a regra é a mesma para o enfrentamento ao crime organizado, corrupção, contrabando. Sonegação fiscal e possivelmente, é claro, evasão de divisas das Nações. Os bancos e outras instituições financeiras não podem agir secretamente, não devem esconder dinheiro e investimentos em contas secretas, provenientes de todos os tipos de ilícitos. Quando isto acontece, o mundo democrático e de Direito, estabelecido por Leis e Normas é, de maneira geral sócio cúmplice do terror visto dia a dia nas manchetes dos jornais, televisão e Internet. Diante desta realidade criminosa, há de se esperar em breve um selo de boa procedência, atestando a origem de quem sabe: da gasolina que consumimos, do bilhete de entrada, pago para visitar uma exposição de artes; do serviço bancário contratado entre outros tantos links que o mundo permite haver com a desordem e o caos global, fomentando a profissionalização do crime e do terrorismo, abrindo sempre espaço para novos meios de negócios lucrativos. O mundo sempre foi e ainda é um lugar muito perigoso, para as pessoas e para os negócios. Ficou ainda pior quando tudo está mais conectado e globalizado.

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