As potencialidades em política externa do Presidente eleito dos EUA

Victor José Portella Checchia  Copyleft Ceiri Newspaper

 A vitória do candidato republicano Donald Trump trouxe para as Relações Internacionais a reflexão sobre os dispositivos que sugerem uma mudança drástica de rumos da política estadunidense, tanto no âmbito interno como no externo.

Na agenda de política externa, as implicações de Trump como Presidente eleito expõem a ordem internacional liberal, a qual o país defende há ao menos sete décadas. Os desgastes e o desencanto de uma economia global saturada e declinante, aliada ao retorno de uma competição geopolítica intensa com Rússia e China, poderão acelerar a desintegração de rede de regras, instituições e alianças que os Presidentes norte-americanos construíram desde 1945, sugerindo que a ordem vigente seja diluída não por aspectos no exterior, mas pelo novo formato doméstico de política que Trump estará desenhando com sua equipe de Governo.

Os novos rumos traçados pelo magnata imobiliário sugerem o quão difícil será alinhar o discurso do candidato regido pela oposição ao establishment político tradicional à cooperação multilateral, haja vista que a via que impulsionou a vitória pretere a globalização e foca os compromissos no exterior pela restauração da soberania dos EUA, uma tendência que expõe o desejo de uma agenda mais isolacionista.

Ao produzir recorte apenas ao âmbito geopolítico, a vitória eleitoral de Trump provocará imediatas tensões e instabilidades em quase todas as regiões: Ásia, Europa, Oriente Médio e América Latina. Os principais líderes mundiais já se preparam para mudanças potencialmente radicais na política externa estadunidense, com o intuito de evitar principalmente um pânico financeiro global.

No Oriente Médio, Síria e Irã são os principais tópicos da agenda para a região e, para especialistas consultados, Trump deverá evitar a precocidade em uma região muito instável e que é assolada por uma guerra civil desde meados de 2011.

O Irã, em particular, tem na alta cúpula governamental a ansiedade quanto aos desdobramentos do acordo de desnuclearização assinado em julho de 2015, que, para a maioria republicana, assim como para Trump, existe o desejo de retroagir os esforços costurados por Barack Obama, os quais renderam a reinserção de Teerã ao sistema internacional como um ator de relevância. Em complemento, a pressão às vésperas das eleições iranianas em 2017 poderá causar um duro golpe aos moderados, partidários do acordo assinado com as potências ocidentais.

A Rússia é outro ator que remete atenção nessa nova agenda da política externa dos Estados Unidos. De acordo com alguns analistas consultados, Vladimir Putin possivelmente irá manter a campanha militar na Síria sem o receio de o Presidente Trump contrariá-lo, tal como poderia ocorrer, caso Hillary Clinton tivesse sido a eleita.

Os Estados Bálticos surgem também como ponto nevrálgico na nova configuração geopolítica e geoestratégica, pois detêm governos relativamente frágeis, que interpretam a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO, na sigla em inglês) como a única esperança contra Moscou, que deseja adotar medidas hegemônicas, incorporando tais Estados a sua zona de influência. O Governo da Estônia, por exemplo, já está à beira do colapso e o efeito de uma perda de cooperação com os EUA, e consequentemente da NATO, será impedir a dissuasão contra Putin, que se movimenta contra o nacionalismo anti-russo, na visão do Kremlin, um pretexto plausível para ação.

No que tange à China, as possibilidades de tensão com a nova administração da Casa Branca circundam no embate econômico com o incremento de novas tarifas comerciais, mais rígidas, prometidas ainda em campanha pelo republicano.

Japão e Coréia do Sul dependentes do guarda-chuva nuclear norte-americano, já estudam alternativas a uma possível ruptura de décadas da doutrina estadunidense contra ameaças externas que podem vir tanto da China, como da Coréia do Norte.

Como parcial conclusão dos movimentos políticos que irão ser adotados pela nova administração, a eleição de Donald Trump representa um desafio monumental, contrariando as raízes dos founding fathers. O que o Presidente eleito propõe é um retorno ao que estudiosos chamam de “Jacksonian”. Essa tensão populista na diplomacia figurou pela primeira vez na Presidência de Andrew Jackson (1829-1837) e retrata o mundo exterior como um lugar perigoso. Os “jacksonians” tendem a defender a política externa insular, porém quando desafiados além-fronteiras deflagram ataques com alto grau de intensidade.

Esse estilo imprevisível e reativo contrasta profundamente com a tensão dominante que marcou a política externa dos dias de Franklin Delano Roosevelt (1933-1945) e Harry Truman até os dias atuais. Nesse sentido, o “trumpismo”, como conceito político, seria uma ferramenta para reflexões futuras acerca do que não deverá ocorrer para se manter a sustentabilidade, interdependência e passividade da ordem internacional.

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