Antropoceno: “era dos humanos” é mais política que científica

Geraldo Luiz Lino 07/10/2016

 O Congresso Geológico Internacional não costuma ser um evento que desperte uma grande atenção da mídia em geral, fora das publicações especializadas. Isto, a despeito de ser um dos mais antigos congressos científicos internacionais, tendo sido realizado pela primeira vez em 1876, em Buffalo, EUA, e desde então repetido a cada 3-5 anos, em diferentes países. No entanto, a sua 35ª edição, em Cape Town, África do Sul (27/08-4/09/2016), foi uma exceção à regra, em grande medida, devido às repercussões da proposta de estabelecimento de um novo acréscimo à nomenclatura do tempo geológico, o chamado Antropoceno, caracterizado pela influência determinante das ações humanas no planeta.

O conceito, ao qual alguns se referem como “era dos humanos”, foi criado independentemente pelo químico holandês Paul Crutzen, que recebeu o Prêmio Nobel da categoria em 1995, por suas pesquisas sobre o “buraco” na camada de ozônio, e pelo biólogo estadunidense Eugene F. Stoermer, tendo sido informalmente adotado pelo movimento ambientalista internacional, como símbolo dos impactos ambientais da humanidade. Em 2009, Crutzen foi um dos criadores do Grupo de Trabalho do Antropoceno (AWG, na sigla em inglês), vinculado à Comissão Internacional de Estratigrafia (ICS), órgão da União Internacional de Ciências Geológicas (IUGS) responsável pela nomenclatura oficial da Escala Geológica do Tempo. Embora conte com uma maioria de geocientistas entre os seus 38 membros, o grupo reúne alguns notórios propagandistas do alarmismo ambientalista, em especial, dos alardeados impactos humanos no clima global, casos do próprio Crutzen, do climatologista brasileiro Carlos Nobre, da historiadora estadunidense Naomi Oreskes e do jornalista científico estadunidense Andrew Revkin. Por si só, a presença destes arautos do catastrofismo climático no grupo é indicadora de uma motivação mais política do que científica para a proposta.

A ideia é “encerrar” o Holoceno, a época geológica iniciada ao final do último período glacial, há cerca de 12.700 anos, e estabelecer uma data específica para o advento do Antropoceno. A maioria dos membros do grupo optou pelo ano de 1950, grosso modo, quando se iniciou a longa série de testes nucleares pelas grandes potências, deixando resíduos de urânio e plutônio em sedimentos, que alguns sugerem como “marcadores” da ação humana no meio geológico.

O boletim de imprensa divulgado pelo AWG antes do congresso assim justifica:

 Os impactos humanos têm deixado traços discerníveis no registro estratigráfico há milhares de anos – de fato, desde antes do início do Holoceno. Entretanto, mudanças sincrônicas no Sistema Terra, substanciais e de alcance aproximadamente global, se intensificaram com muita clareza na “Grande Aceleração” de meados do século XX. (…) Assim, os meados do século XX representam o início ótimo de uma potencial época do Antropoceno. (…)

As mudanças no Sistema Terra, que caracterizam a potencial época do Antropoceno, incluem uma marcante aceleração nas taxas de erosão e sedimentação, perturbações químicas de grande escala nos ciclos do carbono, nitrogênio, fósforo e outros elementos, o início de mudanças significativas no clima global e no nível do mar, e mudanças bióticas, tais como níveis inusitados de invasões de espécies em toda a Terra. Muitas destas mudanças são de longa duração, em termos geológicos, e algumas são efetivamente irreversíveis [grifos nossos].

Desde o seu surgimento, é fato, a humanidade tem alterado significativamente os ciclos biogeoquímicos, as paisagens, os ciclos de erosão/sedimentação, a distribuição de espécies animais e vegetais e, até mesmo, induzido terremotos de baixa intensidade (como já aconteceu nas vizinhanças de grandes represas e, mais recentemente, na exploração dos hidrocarbonetos de folhelhos). Mas é surpreendente que um grupo científico integrado majoritariamente por geocientistas tenha endossado de forma tão crua a pueril tese da influência humana nas “mudanças significativas no clima global e no nível do mar” – pelo simples motivo de que inexiste qualquer evidência física de que as oscilações das temperaturas atmosféricas e oceânicas e dos níveis do mar, nos últimos séculos, sejam anômalas em relação às observadas anteriormente, ao longo do Holoceno ou antes dele. Sem tais anomalias, que os alarmistas costumam atribuir ao uso intensivo dos combustíveis fósseis – carvão mineral, petróleo e gás natural –, a partir da Revolução Industrial do século XVIII, não há qualquer possibilidade de se detectar a propalada influência humana no clima em escala global. Ao contrário, dentro do próprio Holoceno, têm se observado oscilações até uma ordem de grandeza mais rápidas que as verificadas nos últimos séculos.

Ou seja, a natureza prescinde da ação humana para provocar essas oscilações, restando ao Homo sapiens continuar utilizando as suas criatividade e resiliência para se adaptar a elas, enquanto se empenha em entender melhor a dinâmica climática global, para, num futuro ainda indeterminado, dispor de condições para influenciá-la com a devida segurança.

De forma emblemática, a campanha pró-Antropoceno tem sido questionada por muitos estratígrafos, os geólogos aos quais cabe determinar, estabelecer as condições de formação e nomear as sucessões rochosas da crosta terrestre (não por acaso, a ICS agrupa o maior corpo científico dentro da IUGS). As críticas são tanto de natureza científica, sobre a validade dos “marcadores” sugeridos para demonstrar a presença humana nos estratos geológicos, como política.

“Os membros votantes da Comissão Internacional de Estratigrafia veem essas coisas de forma crítica”, diz o presidente da comissão, Stan Finney, professor da Universidade Estadual da Califórnia em Long Beach. Porém, ele mesmo observa que os integrantes da ICS receiam que a comissão poderá ser alvo de críticas se não aprovar o novo nome. “Eu me sinto como se estivesse num farol, com uma enorme tsunami se aproximando”, afirmou (Sciencemag, 24/08/2016).

“Nós estamos nervosos com isso”, confirma seu colega Phil Gibbard, professor da Universidade de Cambridge e um dos únicos três membros do AWG que votou contra a proposta de mudança.

Em um contundente artigo publicado na edição de julho de 2012 da revista GSA Today, da Sociedade Geológica da América, os geólogos Whitney J. Autin e John M. Holbrook, respectivamente, do SUNY College de Brockport e da Universidade Cristã do Texas, questionam se a discussão sobre o Antropoceno é uma questão científica ou da “cultura popular”. Para eles:

Embora nós reconheçamos no termo Antropoceno uma fascinação distinta e admitamos que o conceito seja meritório, a cultura popular não tem interesse nas implicações estratigráficas desse debate. Se houve um desejo subjacente de se fazerem comentários sociais sobre as implicações das mudanças ambientais induzidas pelo homem, o Antropoceno, claramente, será efetivo. Porém, ser provocativo pode ter uma importância maior na cultura popular do que na pesquisa científica séria.

Talvez, um dos questionamentos mais relevantes que nós, na comunidade científica, temos com termos como o Antropoceno, é uma tendência para colocar no mercado expressões que produzam rótulos questionáveis. O Antropoceno já apareceu em manchetes de jornais, conferências e propostas para o financiamento de pesquisas. Os cientistas modernos enfrentam as pressões para desenvolver e sustentar uma credibilidade que fomente a produção científica. Poderá haver um jogo final astuto em mente?

Depois de criticar os critérios sugeridos para demarcar os perfis geológicos que caracterizariam o Antropoceno como uma nova divisão da Escala Geológica do Tempo, os autores concluem:

(…) Em essência, ele descreve as perturbações geradas pelas atividades humanas. Entretanto, elevar termos que podem ser tornar icônicos na cultura popular não constitui, por si só, evidência suficiente para se corrigir a prática estratigráfica formal. A ciência e a sociedade têm muito a ganhar com um claro entendimento de como os humanos afetam os processos do Sistema Terra, em vez de se conduzir um debate esotérico sobre a nomenclatura estratigráfica. Deixemos que o Antropoceno mantenha o seu devido lugar como um ponto focal nas guerras culturais sobre o reconhecimento e a interpretação dos processos ambientais.

Em outras palavras, sugerem que o termo seja mantido à margem da Ciência – que já tem problemas em excesso com o catastrofismo ambiental/climático.

Em outro artigo, apresentaremos uma síntese da mais rigorosa formulação científica sobre as interações entre as ações humanas e o mundo físico e os seres vivos em geral, esboçada pelo geólogo russo Vladimir I. Vernadski, um dos maiores cientistas dos últimos séculos, cuja conceituação da noosfera constitui uma ferramenta intelectual incomparavelmente superior ao Antropoceno, como “ideia-força” necessária para orientar as ações da humanidade.

Anúncios
Esse post foi publicado em Ciência e Tecnologia. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s