Um tiro no coração da “Nova Ordem Mundial”

Editoria MSIA 11/11/2016 Copyleft

Um tiro certeiro no coração da “Nova Ordem Mundial” inaugurada com a Guerra do Golfo de 1990-91, legando ao mundo um quarto de século de hegemonia bélica, conflitos de toda ordem, “mudanças de regime” disfarçadas de democratização, financeirização da economia, desindustrialização, aumento das desigualdades sociais, pessimismo cultural e um abismo cada vez mais profundo entre as políticas formuladas pelas elites dirigentes e as aspirações e necessidades reais das sociedades de todo o mundo. Com ele, o fantasma do protecionismo retorna para assombrar os centros do poder político e econômico mundiais.

Este é o significado maior da vitória de Donald Trump sobre Hillary Clinton, a candidata ostensiva do Establishment oligárquico, nas eleições estadunidenses de 8 de novembro, cujos tremores secundários poderão fragilizar ainda mais aquela estrutura de poder global, já golpeada por eventos igualmente inesperados pelos seus controladores e beneficiários, a exemplo do referendo “Brexit” do Reino Unido.

Não que o caricato e truculento futuro 45º. presidente dos EUA deva ser considerado um paladino do verdadeiro republicanismo (no sentido da observância do Bem Comum) e da “desglobalização”. Mas, visivelmente, ele aproveitou com habilidade o repúdio de grande parte da população às políticas geradoras de conflitos permanentes, desindustrialização, desemprego e desesperança, antes manifestado nas próprias fileiras do Partido Democrata, com a surpreendente popularidade da pré-candidatura do senador Bernie Sanders, que obrigou os caciques partidários a toda sorte de manobras sujas de bastidores para favorecer Hillary.

Em seu breve discurso de vitória, após receber um telefonema da rival derrotada, Trump sinalizou apenas dois pontos da sua agenda de governo. No plano interno, reconstrução econômica, com ênfase na infraestrutura física: “Nós vamos consertar as nossas cidades interiores e reconstruir as nossas rodovias, pontes, túneis, aeroportos, escolas e hospitais.” Sem citá-lo, chegou a lembrar o compromisso de Franklin Roosevelt (1933-45) com o “homem esquecido na base da pirâmide econômica”, afirmando que “cada estadunidense terá a oportunidade de realizar o seu potencial pleno. Os homens e mulheres esquecidos do nosso país não serão mais esquecidos”. No plano externo, cooperação em vez de confrontação: “Vamos buscar um terreno comum, não hostilidade; parcerias, não conflitos.”

Em ambos os quesitos, se confirmar as suas intenções, Trump estará na contramão da agenda da “Nova Ordem Mundial”.

Na economia, a ênfase na infraestrutura – e, consequentemente, na produção física – implicará em um oportuno contraponto ao “livre comércio”, às transferências de indústrias para países de baixos salários e aos jogos financeiros da “globalização”, que levaram à presente crise sistêmica global.

Nas relações internacionais, a renúncia ao uso da força militar como instrumento favorecido de política externa poderá contribuir decisivamente para neutralizar perigosos focos de incêndio, como o virtual cerco à Rússia montado pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e os conflitos no Oriente Médio, para cuja solução o entendimento com Moscou, prometido por Trump, será crucial (não por acaso, o ponto da sua agenda mais combatido pelo Establishment). Evidentemente, o futuro presidente terá que estender as suas promessas de entendimento e parceria a países importantes que, por motivos diversos, tratou com rispidez durante a campanha, como a China, o Irã e o México. Para este último, por exemplo, o muro que prometeu estender por toda a fronteira entre os dois países se tornará desnecessário como elemento para dificultar a imigração ilegal, se concretizar a intenção de não renovar o famigerado Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA) e recolocar a ênfase das políticas econômicas no incentivo à produção, cujos efeitos combinados não deixarão de beneficiar o país vizinho.

O plano de infraestrutura de Trump contempla investimentos da ordem de um trilhão de dólares em dez anos – pouco ambicioso para as potencialidades da economia estadunidense, mas um avanço considerável em relação à estagnação verificada no setor, nas últimas décadas. O financiamento viria de isenções fiscais oferecidas a empresas privadas dispostas a investir nos projetos, complementados por investimentos das próprias empresas (Business Insider, 27/10/2016).

Tal agenda, combinada com o impulso cooperativo encabeçado pela China e a Rússia, em torno da integração físico-econômica eurasiática, tem o potencial de estabelecer uma ordem mundial diametralmente oposta à prevalecente nas últimas décadas.

Por isso, não admiram as reações histéricas dos porta-vozes midiáticos do Establishment, como este editorial do Financial Times:

A vitória de Donald Trump marca um trovejante repúdio ao status quo. A mais poderosa nação da Terra elegeu um empreendedor imobiliário sem qualquer experiência no governo, um autoproclamado homem forte depreciativo de aliados, do discurso civil e das convenções democráticas. Salvo por uma mudança proteana [capaz de mudar de forma – n.e.] de personalidade, a vitória do Sr. Trump parece representar um desafio ao modelo democrático ocidental. (…)

Por “modelo democrático ocidental”, entenda-se um eufemismo para a sua agenda hegemônica excludente.

Uma passagem do texto é particularmente digna de atenção, ao notar que “o Sr. Trump foi bem-sucedido onde falharam Huey Long e George Wallace, populistas estadunidenses do século XX”. O que o arauto da City de Londres não diz é que tanto Long (em 1936) como Wallace (em 1972) foram vitimados por proverbiais “loucos solitários”, espécie que tem emergido com certa regularidade na história política estadunidense, sempre no caminho de elementos problemáticos para o Establishment. Embora Wallace tenha sobrevivido, o atentado que o tornou paraplégico se revelou fatal para as suas pretensões presidenciais. Igualmente, vale recordar o fracassado atentado ao então presidente eleito Franklin Roosevelt, em janeiro de 1933, um mês antes da posse, no qual acabou morto o prefeito de Chicago, Anton Cermak. Efetivamente, uma possível reação extrema do gênero é um risco a ser considerado, pois a “Nova Ordem Mundial” é um monstro encurralado, ferido e, por conseguinte, perigosíssimo.

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