A PEC 55 e o empobrecimento da classe média

Mauricio Grillo Jr. 12/11/2016

Nos anos 30 quando da tomada do Estado pelo golpe que levou Getúlio a

presidência, o café dominava a cena econômica brasileira e hegemonizava a

balança comercial com 70% da pauta de exportações. Era então necessário

desviar os trilhos daquele trem que transportava um passado agrário e que

representava, pelo alto grau de conservadorismo oligárquico, um atraso que já

incomodava a burguesia urbana sedenta de ver os trilhos carregados de

vagões transportando os produtos oriundos de uma industrialização que ainda

caminhava enquanto via o trem passar carregado de café.

Entendendo isso, Getúlio liderou a construção de um parque industrial que

atendesse as expectativas do país que não podia mais adiar o seu

desenvolvimento. Para isso tratou de estabelecer um projeto que interligasse

os setores produtivos para que a produção e os produtos pudessem atender a

crescente demanda de consumo. Vale lembrar que as importações superavam

as exportações, desequilibrando constantemente a balança comercial e

aumentando as dívidas interna e externa inviabilizando a economia.

Esse processo, que os economistas chamam de “ciclo de desenvolvimento

econômico”, interliga produção, comercialização e consumo, mantendo a

economia equilibrada.

Em seus 15 anos de governo, Vargas criou condições para que esse ciclo de

desenvolvimento econômico pudesse propiciar a classe média e aos setores

mais pobres da sociedade uma situação de consumo constante, permitindo que

a indústria e o comercio mantivessem empregos e, consequentemente,

consumidores que mantinham o ciclo em funcionamento.

A PEC 55 que o Senado vai analisar nos próximos dias, se aprovada,

quebrará de vez com esse ciclo de desenvolvimento econômico, provocando a

falência da classe média e a drástica diminuição do consumo, levando a

economia a patamares perigosos de desequilíbrio.

A eliminação dos maiores consumidores do país, vai quebrar as empresas e na

esteira desse processo, os bancos.

O jornalista Mauro Santayana em recente artigo intitulado “O fim do Brasil o

suicídio do estado”, publicado também nesse blog, analisa esse assunto e

afirma o seguinte: “Nem mesmo nos Estados Unidos, um dos países mais

endividados do  mundo, com quase o dobro da dívida pública brasileira, existe

um limite automático para o teto de endividamento nacional, bastando que este

seja renovado ou aumentado pelo Congresso… não existem nações fortes sem

estado forte, e isso nos lembra, novamente, os EUA, que tem 5 milhões de

funcionários públicos apenas no Departamento de Defesa. Se formos

considerar o “ocidente” não existem nações desenvolvidas sem alto

endividamento, como é o caso dos países do G-7, todos com dívidas públicas

brutas ou líquidas maiores que a brasileira, a começar pelo Japão, com 230%

do PIB e, mais uma vez, pelos EUA, de quem somos – apesar de estarmos

“quebrados” como afirma a toda a hora o governo e a mídia – o quarto maior

credor individual externo.”

E para completar, Santayana faz a seguinte reflexão: “…o que vamos fazer

quando precisarmos, por meio de endividamento – como fazem os Estados

Unidos a todo momento – aumentar a produção de material bélico e armar as

nossas forças contra eventuais inimigos externos? Esperar 20 anos, para que

se extinga a validade dessa lei absurda que estamos votando agora? Ou gritar,

para os soldados estrangeiros, quando estiverem desembarcando em nossas

praias, o índice de inflação do ano anterior?”

O Senado sob a liderança de Renan Calheiros, deve mudar sua concepção e

olhar de forma estratégica para o futuro. A aprovação dessa PEC vai legar a

esse país uma realidade que nem Vargas no Estado Novo, imaginou. Naqueles

primórdios de industrialização o que se imaginava era um futuro que desse ao

Brasil uma segurança e não uma tragédia presente que vai nos reter cravados

por 20 anos sem podermos desenvolver nossas potencialidades.

Como no passado colonial, diremos amém a cada decisão de nossos novos

colonizadores.

Mauricio Grillo Jr.

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