A verdadeira crise humanitária não é Alepo

Paul Craig Roberts    26/10/2016   Copyleft

Uma retrospectiva da intervenção dos EUA no Médio Oriente desde o 11 de Setembro mostra uma implacável marcha em direcção à trágica perspectiva hoje colocada: o confronto militar com a Rússia, a segunda maior potência nuclear. A previsível eleição de Hillary Clinton será um passo mais em direcção a essa catástrofe.

 

Porque será que apenas ouvimos falar da “crise humanitária em Alepo” e não da crise humanitária em todo o resto da Síria, onde a perversão que governa Washington desencadeou os seus mercenários do ISIS para trucidarem o povo sírio? Porque será que não ouvimos falar da crise humanitária no Iémen onde os EUA e o seu vassalo saudita estão a massacrar mulheres e crianças? Porque será que não ouvimos falar da crise humanitária na Líbia onde Washington destruiu um país deixando o caos em seu lugar? Porque será que não ouvimos falar na crise humanitária no Iraque, que já se arrasta há 13 anos, ou a crise humanitária no Afeganistão, que já vai em 15 anos?

A resposta é que a crise em Alepo é a crise de Washington estar a perder os seus mercenários do ISIS perante o exército sírio e a força aérea russa. Os jihadistas enviados por Obama e pela assassina criatura Hillary (“We came, we saw, he died”; “Viemos, vimos, ele morreu”) para destruir a Síria estão a ser destruídos eles próprios. O regime Obama e os prostituto-jornalistas (“presstitutes”) ocidentais estão a tentar salvar os jihadistas abrigando-os sob o manto da “crise humanitária”.

Este tipo de hipocrisia é padrão em Washington. Se o regime de Obama tivesse um mínimo de preocupação acerca de “crises humanitárias” não teria orquestrado crises humanitárias na Síria, Iraque, Afeganistão, Líbia e Iémen.

Está a decorrer uma campanha presidencial nos EUA e ninguém levantou a questão de porquê estarem os EUA determinados em derrubar um governo sírio democraticamente eleito que é apoiado pelo povo sírio.

Ninguém perguntou porque é que o palhaço na Casa Branca tem legitimidade para remover o presidente da Síria lançando contra o povo sírio jihadistas abastecidos pelos EUA, que os prostituto-jornalistas apresentam falsamente como “rebeldes moderados”.

Washington não tem, obviamente, resposta aceitável para tal pergunta, e é essa a razão por que a pergunta não é colocada.

A resposta à pergunta é que a estratégia de Washington para a desestabilização do Irão e depois das províncias muçulmanas da Federação Russa, a anterior Ásia central soviética, e a província muçulmana da China, é a substituição de governos estáveis pelo caos do jihadismo. Iraque, Líbia, e Síria tinham sociedades seculares estáveis nas quais a mão firme dos governos intervinha para prevenir o confronto sectário entre seitas muçulmanas. Através do derrube desses governos seculares e do esforço actual para derrubar Assad, Washington desencadeou o caos do terrorismo.

Não existia terrorismo no Médio Oriente até Washington o trazer com as suas invasões, bombardeamentos, tortura.

Jihadistas como os que Washington utilizou para derrubar Khadafi surgiram na Síria quando o Parlamento Britânico e o governo russo bloquearam a invasão da Síria que Obama planeara. Como Washington foi impedido de atacar directamente a Síria, Washington utilizou mercenários. Os prostitutos que fazem de conta ser os media americanos fizeram a Washington o favor de propagandear que os terroristas jihadistas são democratas sírios em rebelião contra a “ditadura de Assad”. Esta gritante e transparente mentira tem sido repetida tantas vezes que agora é confundida com a verdade.

Não existe qualquer espécie de ligação entre a Síria e a justificação inicial de Washington para recorrer à violência no Médio Oriente. A justificação inicial foi o 9/11, e foi utilizada para invadir o Afeganistão com base na invenção de que os taliban davam acolhimento a Osama bin Laden, o “cérebro”, que na altura estava a morrer por insuficiência renal num hospital paquistanês. Osama bin Laden era um activo da CIA que fora utilizado contra os soviéticos no Afeganistão. Não foi o perpetrador do 9/11. E os taliban também não, com toda a certeza.

Mas os prostituto-jornalistas deram cobertura à mentira do regime de Bush, e o público foi enganado com a frase de que devemos “derrotá-los lá fora antes que nos ataquem em casa”.

Evidentemente que os muçulmanos não iam atacar-nos em casa, Se os muçulmanos constituem uma ameaça, porque continua o governo dos EUA a trazer tantos para cá enquanto refugiados das guerras de Washington contra os muçulmanos?

O 9/11 foi o “novo Pearl Harbor” dos neoconservadores, aquele que eles tinham escrito ser necessário para desencadearem as suas guerras no Médio Oriente. O primeiro Secretário do Tesouro de Bush disse que ao assunto da primeira reunião do gabinete de Bush foi a invasão do Iraque. Isto foi antes do 9/11. Por outras palavras, as guerras de Washington no Médio Oriente foram planeadas anteriormente ao 9/11.

Os neoconservadores são sionistas. Ao mergulharem o Médio Oriente no caos alcançam ambos os seus objectivos. Eliminam oposição organizada à expansão israelita e criam jihadismo que pode ser utilizado para desestabilizar países como Rússia, Irão e China que constituem um entrave ao exercício do poder unilateral que, acreditam, o colapso soviético depositou na “nação indispensável”, os EUA.

Osama bin Laden, o alegado cérebro do 9/11, estava a morrer, não estava a dirigir uma guerra de terror contra Washington a partir de uma gruta no Afeganistão. Os taliban estavam concentrados em consolidar o seu poder no Afeganistão, não em atacar o Ocidente. Depois de bombardear casamentos, funerais, e jogos de futebol de crianças, Washington deslocou-se para o Iraque. Não existia qualquer indício de beligerância do Iraque em relação a Washington. Inspectores de armamento da ONU disseram que não existiam armas de destruição massiva no Iraque, mas Washington não os ouviu. As meretrizes que integram os media norte-americanos ajudaram o regime de Bush a criar a imagem de uma América sob o cogumelo de uma nuvem nuclear se os EUA não invadissem o Iraque.

O Iraque não dispunha de armas nucleares e toda a gente o sabia, mas os factos eram irrelevantes. Havia uma agenda em andamento, uma agenda não declarada. Para avançar com uma agenda que não ousava revelar o governo recorreu ao medo. “Temos que os matar antes que nos venham eles aqui matar.”
E portanto o Iraque, um país estável e progressivo, foi reduzido a ruínas.

Seguiu-se a Líbia. Khadafi não queria juntar-se ao Comando Africano de Washington, a China estava a desenvolver campos de exploração de petróleo na Líbia oriental. Washington estava já incomodado com a presença russa no Mediterrâneo e não queria que a China também aí estivesse presente. Portanto Khadafi tinha que ser removido.

Depois foi Assad a ser acusado, com testemunhos falsificados, de ter utilizado armas químicas contra a rebelião que Washington desencadeara. Ninguém, nem mesmo o Parlamento Britânico, acreditou na transparente mentira de Washington. Incapaz de encontra apoio que desse cobertura a uma invasão, a psicopata AssassHillary (“Killary”) enviou os jihadistas que Washington utilizara para destruir a Líbia para derrubar Assad.

Os russos, que até esta altura tinham sido ingénuos e crédulos a ponto de confiarem em Washington, descobriram finalmente que a instabilidade que Washington estava a fomentar se dirigia contra eles. O governo russo decidiu que a Síria constituía a sua linha vermelha e, a solicitação do governo sírio, intervieram contra os jihadistas apoiados por Washington.

Washington sente-se ultrajado e ameaça agora cometer ainda outra criminosa violação do Padrão de Nuremberga agredindo ostensivamente a Síria. Semelhante passo irresponsável colocaria Washington em conflito militar com a Rússia e, por implicação, com a China. Os europeus, antes de permitirem que Washington dê início a um conflito tão perigoso, fariam bem em registar a advertência de Sergei Karaganov, membro do Conselho de Política Externa e Defesa do ministério russo dos Negócios Estrangeiros: “A Rússia nunca mais voltará a combater no seu próprio território. Se a NATO der início a uma invasão contra uma potência nuclear como nós, a NATO sofrerá uma punição.”

O facto de o governo dos EUA ser criminosamente demente deveria assustar qualquer pessoa na face da Terra. AssassHillary está apostada em entrar em conflito com a Rússia. Apesar disso, Obama, os prostituto-jornalistas e o “establishment” democrata e republicano estão a fazer todo o possível para instalar na Sala Oval a pessoa que irá maximizar o conflito com a Rússia.

A sobrevivência do planeta está nas mãos de criminosos dementes. É essa a verdadeira crise humanitária.

Nota: O Ten-General Michael Flynn, director da Agência de Informações de Defesa (DIA) do Pentágono declarou numa entrevista que a criação do ISIS foi “uma decisão deliberada de Washington.” V. por exemplo, https://www.rt.com/usa/312050-dia-flynn-islamic-state/ Also: http://russia-insider.com/en/secret-pentagon-report-reveals-us-created-isis-tool-overthrow-syrias-president-assad/ri7364. A DIA advertiu que ISIS viria a evoluir para um principado salafista que ocuparia partes do Iraque e da Síria http://www.judicialwatch.org/wp-content/uploads/2015/05/Pg.-291-Pgs.-287-293-JW-v-DOD-and-State-14-812-DOD-Release-2015-04-10-final-version11.pdf  A advertência foi ignorada uma vez que o regime neoconservador de Obama via o ISIS como um recurso a ser utilizado contra a Síria.

Anúncios
Esse post foi publicado em Estratégia. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s