Bayer-Monsanto: uma união diabólica

Hedelberto López Blanch 30/09/16  Copyleft

A anunciada compra em curso da Monsanto pela Bayer é uma imagem da colossal dimensão e concentração que o capital monopolista assume na fase actual do capitalismo. E do seu significado para a humanidade: duas empresas cujo historial é o de uma sucessão de danos e de autênticos crimes, cuja acção torna muitos medicamentos e produções agrícolas em fontes de destruição e doença. E daí retiram superlucros.

As empresas Bayer e Monsanto, em lugar de beneficiarem a população mundial com os seus medicamentos e alimentos transgénicos provocam em contrapartida, em muitas ocasiões, graves enfermidades e até a morte a numerosas pessoas, ao mesmo tempo que ampliam constantemente os seus enormes lucros.

Após vários meses de negociações, a companhia farmacêutica alemã Bayer confirmou a compra do fabricante estado-unidense de Transgénicos Monsanto por 66 000 milhões de dólares.

O acordo deverá ser fechado em finais de 2017 e se por qualquer motivo fracassar a Bayer indemnizará a Monsanto em 2 000 milhões de dólares.

Para o acordo a enorme companhia alemã fará um aumento de capital e contratará um crédito ponte de 57 000 milhões de dólares com os bancos Merrill Lynch, Credit Suisse, Goldman Sachs, HSBC e JP Morgan. A aquisição de Monsanto converterá também a Bayer no maior produtor de sementes e pesticidas do mundo.

Ambas as empresas têm um enorme e perigoso historial contra a saúde das pessoas relacionado com produtos criados a partir da utilização de Organismos Geneticamente Modificados (OGM).

Vejamos alguns dos grandes problemas criados por essas empresas. As pastilhas confeccionadas à base da hormona drospirenona custaram à Bayer 2 000 milhões de dólares, em pagamentos a cerca de 10 000 mulheres para evitar longos expedientes judiciais e mais escândalos.

Meios de comunicação reportavam em Dezembro de 2015 que Felicitas Rohrer confrontou o laboratório Bayer num julgamento “simbólico” na Alemanha, por haver colocado em perigo a sua vida com um anticonceptivo oral do tipo Yasmin que engloba Yasminelle e Yaz.

Rohrer, de 25 anos, padece de embolia pulmonar, perde o fôlego e necessita de tomar um anticoagulante que reduz as suas possibilidades de ter filhos. Em Junho de 2009 sofreu uma paragem cardíaca de 10 minutos, tinha coágulos de sangue nos pulmões e após vários estudos ficou demonstrado que os comprimidos de terceira e quarta geração (à base de drospirenona e outras progesteronas recentes) multiplicam por dois o risco de tromboembolismo relativamente às de segunda geração.

Um grupo de ajuda mutua recolheu uns 1 250 testemunhos de mulheres sofrendo de efeitos secundários similares.

Outro caso anterior muito divulgado ocorreu em Janeiro de 2010 quando em Barcelona, Espanha, a empresa foi condenada por danos provocados pela venda do fármaco Liposterol (cerivastatina) para tratar o colesterol. Vários dos queixosos sofreram de rabdomiólise, (insuficiência renal e síndromas psiquiátricos) depois de ingerir o medicamento,

O consumo da cerivastatina provocou a morte de várias pessoas. A própria Bayer reconheceu, ao ser retirado do mercado, que se haviam produzido em todo o mundo pelo menos 100 mortes relacionadas com o medicamento. Os familiares dos falecidos apenas receberam de compensação uns 5 000 dólares.

No Canadá, a farmacêutica enfrenta processos da ordem dos 150 milhões de dólares devido a danos que o seu medicamento anticoagulante Xarelto causa. Esse fármaco produz sangramentos excessivos que podem conduzir à morte, e calcula-se que só entre 2012 e 2013 pelo menos 130 pessoas faleceram em sua consequência. As acusações à empresa estão relacionadas com a falta de informação e de advertências sobre os possíveis graves danos provocados por Xarelto.

O processo de aprovação de Xarelto, cujo principio activo é o rivaroxaban, foi desde o principio difícil devido aos efeitos secundários e às suas não esclarecidas reacções adversas a longo prazo. Apesar disso tudo, Xarelto é comercializa nos Estados Unidos, com a advertência de que os pacientes não devem deixar de tomar o medicamento sem consultar o seu médico, pois pode verificar-se um risco acrescido de acidentes cerebrovasculares.

Passemos agora à já tristemente famosa Monsanto cuja registo de iniciativas contra a saúde humana se torna interminável, segundo diversos estudos científicos.

Fundada no Missouri, em 1901, com o objectivo de produzir substitutos do açúcar para a companhia Coca-Cola, os estudos realizados em 1970 pelo Instituto Nacional do Cancro dos Estados Unidos, revelaram que a sacarina que fabricava provocava essa enfermidade em mamíferos utilizados nos ensaios.

Numa das suas fábricas instalada em Anniston, Alabama, produziu na década de 1920 o bifenilo policlorado, líquido refrigerante para condensadores, transformadores e motores eléctricos. Cinquenta anos mais tarde, a Agencia de Protecção do Meio Ambiente (APMA), provou que esse elemento provoca cancro em humanos e animais. A Monsanto pagou mais de 600 milhões aos residentes de Anniston, mas os danos e os sofrimentos ocasionados à sua população foram irreparáveis.

Em 1980 a APMA proibiu a transnacional de fabricar poliestireno sintético para embalar alimentos devido aos seus efeitos nocivos, mas continuam a produzi-lo. A Monsanto converteu-se em 1944 num dos primeiros criadores do insecticida DDT, utilizado contra os insectos e na agricultura, e em 1972 confirmaram-se os seus efeitos cancerígenos.

Aliada às grandes corporações militares estado-unidenses, a Monsanto produziu o agente laranja que foi lançado no Vietname, causador de desfolhações ambientais e de diferentes tipos de cancro nessa população asiática.

Também desde a década de 1950 elabora o herbicida 2,4,5-T, à base de dioxina, um dos precursores do agente laranja que no percurso da cadeia alimentar se acumula debaixo da pele dos animais e que, ao serem essas carnes (vacum, bovina, caprina, avícola) consumidas pelos humanos podem afectar-lhes o sistema imunitário, interferir nas hormonas e motivar o cancro.

Para aumentar a produção de leite nas vacas, a Monsanto criou a hormona modificada, somatotropina bovina recombinante (rBGH). Investigações efectuadas indicam que o leite rBGH está relacionado com o cancro da mama, do colon e da próstata nos humanos. Essa hormona está já vetada no Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Japão, Israel, a União Europeia e Argentina.

Cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts opinam que os produtos de Monsanto poderiam conduzir a uma maior taxa de autismo no país asseguram que o uso de novos tipos de fertilizantes agrícolas e herbicidas nos Estados Unidos conduzem à alteração do desenvolvimento do cérebro nos recém-nascidos.

A cientista Stephanie Seneff, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, denunciou que “a manter-se a taxa de hoje em dia, na América do Norte em 2025 uma em cada duas crianças será autista”.

Seneff demonstrou num recente evento científico a existência de uma correlação notável entre o aumento do uso do herbicida Roundup – com o seu ingrediente activo, glifosato – nas culturas e as crescentes taxas de autismo.

Ficou demonstrado que o glifosato está presente em níveis perigosos no leite materno das mães estado-unidenses. Para além disso, sabe-se que nas crianças autistas se verificam biomarcadores que indicam uma excessiva concentração de glifosato no seu corpo.

Em 1975, uma em cada 5 000 crianças no país norte-americano era autista, enquanto hoje uma em cada 68 crianças sofre desta enfermidade, ao mesmo tempo que o uso de Roundup se tornou obrigatório para a produção de culturas semeadas com sementes geneticamente modificadas pela empresa de biotecnologia Monsanto.

Depois deste pequeno resumo do largo historial de prejuízos provocados por Bayer e Monsanto, ¿poderemos dormir tranquilos enquanto os nossos familiares e nós mesmos consumimos numerosos alimentos (carnes, leites, ovos, milho, soja, etc.) com elementos geneticamente modificados pela Bayer e Monsanto? É inegável que se a negociação das duas empresas se conclui em 2017 será uma desastrosa união diabólica para a humanidade.

*Rebelión publicou este artigo com autorização do autor mediante uma licença de Creative Commons, respeitando a sua liberdade para o publicar em outras fontes.

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