Geab 106

Leap -Geab 15/06/2016

 

A cólera dos Povos, défices democráticos, crise sistémica global – Balcanização e regresso dos impérios na Europa Central e Oriental: a bomba do fracasso da integração europeia e a crise euro-russa

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Em 2014, antecipámos a desintegração do flanco oriental da UE na sequência do diferendo euro-russo. Apenas dois anos depois, os desgastes tornam-se visíveis. Se a Europa e a Rússia não conseguirem retomar o diálogo, espera-se o pior para esta parte da Europa onde os velhos demónios estão em pleno ressurgimento (guerra fria, guerras europeias, balcanização, e lógicas de império…) e onde todos os fracassos da política de alargamento da UE se começam a revelar.

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Figura 1 – Mapa da Europa Central e Oriental. Fonte: KKR.

A integração da Europa de Leste é um fracasso

O maior fracasso dos 30 anos de construção europeia foi certamente a política de alargamento aos países do bloco soviético. Esta política essencialmente movida pela ganância das empresas da Europa Ocidental (e também para além dela) foi feita às custas da integração política do continente no seu conjunto e à custa das populações do Este em particular. Mencionámos repetidas vezes as fracas taxas de participação nas eleições europeias nestas regiões, que estava no entanto ávida para entrar na UE. O flanco oriental da UE é agora um patchwork de países movidos por motivações diferentes, com diferentes graus de integração e atravessados por interesses de todas as naturezas. Os riscos de desintegração e de conflitos são imensos e ameaçam o projecto europeu, bem mais do que a hipótese de uma saída do Reino Unido.

A crise euro-russa de 2014 criou as condições para uma desarticulação desta região, agora dividida entre inúmeros interesses e futuros possíveis. Como veremos mais à frente, o aumento das extremas-direitas, em particular, data, como por acaso, de 2014. A consciência destes perigos leva-nos a antecipar que os Europeus irão acabar com as sanções à Rússia até ao final do ano (ver o artigo mais à frente nesta edição). Se isso não acontecer, a desagregação desta região do mundo não acontecerá sem uma explosão de tensões nesta região e entre a Europa e a Rússia. Explosão cujo detonador poderá bem situar-se nos Balcãs, do qual não falaremos neste artigo, mas que participa de corpo inteiro na equação.

Schengen, euro, UE : uma integração a múltiplas velocidades

fig2Na verdade, olhemos para a disparidade desta zona de alargamento pós-queda do muro.

Certos países são membros de todos os níveis da integração europeia (UE, euro, Schengen), como a Eslovénia, a Estónia, a Lituânia, a Eslováquia. Esta lista revela uma certa aberração por nela figurarem três países bálticos em vez da Polónia ou da República Checa, que pareceriam membros completos mais lógicos.

Outros países são membros da UE e da zona Schengen, mas não da zona euro : Polónia, República Checa e Hungria. Outros são apenas membros da UE, como a Roménia, a Bulgária e a Croácia. É certo que foram os últimos a chegar, mas as reticências de fundo a ver estes países aceder ao privilégio da liberdade de deslocação (zona Schengen) parecem bem firmes.

E depois existem ainda os países candidatos, impedidos de outro futuro que não o europeu, que vêem ser-lhes indefinidamente prometida a consideração pelo seu pedido de adesão, indistintamente misturados entre membros realmente potenciais e efabulações completas : países dos Balcãs, Ucrânia, Turquia, Geórgia…

Níveis de integração e direitos diferentes criam um sentimento de casta e verdadeiras desigualdades de tratamento na região. Os países que integraram a zona euro correspondem aos senhores da região. Pelo contrário, a Roménia (que é no entanto o país que primeiro se candidatou à UE, em 1995) e a Bulgária, que não estando dentro de Schengen numa altura em que o espaço Schengen se reforça, arriscam-se a ficar do outro lado do muro que se ergue actualmente no resto da Europa. Uma evolução deste tipo excluiria de facto estes dois países, reenviando-os para uma região dos Balcãs, cujo destino é preocupante se a Europa e a Rússia não se chegarem a entender de novo.

Grandes disparidades económicas

Fala-se sempre do eixo de disparidades este-oeste. A Europa central e oriental está na realidade longe de ser homogénea. Se observarmos os salários médios, a amplitude situa-se entre os 350 euros na Bulgária e os 1092 euros na Eslovénia. A Eslovénia está ao nível do salário dos países mais pobres da Europa Ocidental (Portugal e Grécia, ligeiramente abaixo dos 1000 euros). Pelo contrário, os búlgaros recebem em média apenas um terço desta soma, ou seja menos que os Chineses[1].

Em matéria de desemprego, a amplitude máxima situa-se entre a República Checa (4,5% de taxa de desemprego) – correspondente ao nível da Alemanha -, e a Croácia (15,1%) – com a Eslováquia mesmo atrás (10,3%), correspondendo à média da zona euro (incluindo os 20% do desemprego em Espanha e os 24% na Grécia) [2].

Quanto ao crescimento, a Europa central e oriental saem-se bem no conjunto, o que é normal dado o processo de convergência induzido pela integração na zona económica da UE. No entanto, podemos distinguir verdadeiros campeões da UE como a Roménia (3,8%) seguida da Polónia e da Eslováquia (3,6%)… mas também países mais lentos como a Croácia (1,6%) – Estónia com apenas 1,1% de crescimento mas com,  como vimos acima, níveis elevados de salários que indicam um nível de desenvolvimento do tipo Europa ocidental, e por isso provavelmente em fase de estabilização[3].

Estes dados permitem constatar que não existe coerência nos pontos fortes de cada um destes países : por exemplo, a Roménia cresce mais rápido que a Bulgária apesar dos níveis dos seus salários serem bem inferiores ; ou, ainda, a Eslováquia com os seus 10,3% de desemprego mas com níveis de salário idênticos aos da Polónia que tem apenas 6,8% de desemprego…

Os países mais afectados pela pobreza têm uma lista ainda diferente: Bulgária, Roménia, Letónia e Hungria são os mais afectados[4], dado que estão em categorias muito diferentes nos indicadores de desemprego, salários e crescimento. Hungria, em particular, tem que ser muito desigual se comparamos o seu bom desempenho económico com os seus riscos elevados de precaridade.

Tudo isto revela um fracasso de convergência económica, que foi no entanto a principal motivação para a entrada na UE. Estas disparidades são igualmente evidentes na Europa Ocidental, mas a motivação económica para a adesão à UE diz respeito apenas a três países (Portugal, Espanha e Grécia), enquanto na Europa central e oriental foi o principal motivo para todos. O sentimento de decepção é, por isso, inevitavelmente mais forte nestes países. Foi-lhes vendida a integração, atraindo-os com um lucro rápido que não chegou. A convergência económica associada à integração na zona económica comum revelou-se uma mentira.

Exércitos, Igrejas : Europa de Leste, terra de conquista

O fracasso da integração e a crise euro-russa transformaram também a Europa central e oriental em verdadeiros campos de batalha. Os interesses estrangeiros que lá se enfrentam são a UE, a Rússia e os Estados Unidos. Toda a Europa central e oriental deseja permanecer na EU, mas alguns vêem na Europa uma simples extensão da América à qual exigem protecção (Países Bálticos, Polónia), enquanto outros exigem que a sua participação na UE não os separe do seu grande vizinho russo (Hungria, Bulgária, Eslováquia). As hostilidades deflagram-se e as grandes potências usam todos os seus meios de influência : a NATO pelos Estados Unidos, propaganda pelos russos… e pelo lado ocidental já que a NATO passa o seu tempo a falar de contra-propaganda[5], e a religião também usada pelos dois lados.

Este último ponto é particularmente interessante pois é muito pouco analisado. Na realidade, desde o fim do comunismo, o sentimento religioso, abafado durante as décadas soviéticas, explodiu na Rússia e nos países da Europa central e oriental. Em manobra por trás deste autêntico regresso à fé, vemos, desde o início dos anos 90, toda uma seita de evangelistas, vindos do outro lado do atlântico, a instalarem-se nos campos da Roménia e em outros lugares[6], como muito dinheiro e programas sociais, afastando muito facilmente estes gansos «brancos» das suas religiões históricas (catolicismo e ortodoxia).

A ortodoxia russa demorou um pouco mais a regressar mas está agora bem viva. Por exemplo, a Roménia cobre-se actualmente de mosteiros ortodoxos[7] (bem mais rápido do que de hospitais), incluindo as regiões do oeste historicamente católicas[8]  (como a Transilvânia)…Leia mais, GEAB 106

Negócios, mafias e corrupção…
Minorias desintegradas…
A confusão de sentimentos UE-NATO…
Nacionalismo vs. federalismo…
O «contra-modelo» Višegrad Group ou V4…

V4 e império austro-húngaro…
Dezembro de 2016 : o dever europeu de levantar as sanções contra a Rússia…

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[1] Salários médios na UE em 2015. Fonte: Reinisfischer, 2015
[2] Fonte : Statista, Février 2016
[3] Fonte: La croissance en Europe, Toute l’Europe, 11/05/2016
[4] Fonte: Euractiv, 20/02/2015
[5] « NATO looks to combat Russia’s ‘information weapon’: document » (ou uma contra-propaganda pode ser outra coisa para além de mais propaganda ?). Fonte: Reuters, 27/01/2016
[6] Testemunhas de Jeová na Eslováquia (fonte: CultNews, 28/08/2002) ; Evangelistas na Roménia (fonte:The Independent, 13/12/1993) para citar apenas estas…
[7] « Romania’s costly passion for building churches ». Fonte: BBC, 07/08/2013
[8]  Esta situação resulta ainda da época comunista durante a qual o ateísmo de Ceausescu impôs com o poderoso fervor do país uma religião única, a ortodoxia, por razões evidentes de influência do Leste.

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