OTAN na mira da Rússia em exercícios militares

Manobras surpresa mandam recado à aliança do Atlântico Norte e testam a capacidade real das forças russas

Bombarteiros Tu-22M3 sobrevoam a Praça Vermelha em Moscou
Texto do Stratfor

Tradução, adaptação e edição – Nicholle Murmel

Resumo

A série mais recente de exercícios militares realizados pela Rússia tomou uma postura cada vez mais ameaçadora. Ainda que não sejam as maiores manobras já conduzidas, as áreas parecem ter sido escolhidas deliberadamente para mandar um recado à OTAN: as atividades em si parecem simular um confronto amplo e total com a Organização através do emprego de submarinos nucleares de ataque em posições avançadas, mísseis balísticos e bombardeiros estratégicos. Armamentos estratégicos, incluíndo itens do arsenal nuclear russo, foram deslocados para locais próximos às fronteiras com nações da OTAN.

Análise

Segundo delcarações oficiais do governo russo, as manobras surpresa – que não foram anunciadas até começarem no dia 16 de março, durarão cinco dias e envolverão cerca de 45 mil combatentes e 3 mil veículos, mais de 40 navios de superfície, 15 submarinos e 110 aeronaves. O armamento envolvido que mais desperta atenção são os mísseis balísticos móveis Iskander e os aviões de caça deslocados para Kaliningrado. Bombardeiros de longo alcance Tu-22M3 foram deslocados para a Crimeia, e submarinos com ICBMs foram lançados ao mar com escoltas.

O comunicado inicial acerca das manobras enfatizava no papel da Frota do Norte da Marinha russa, afirmando que o propósito das atividades era testar o tempo de deslocamento nas posições em Novaya Zemlya e terra de Franz Josef. A Rússia já reforçou sua presença militar na região do Ártico. Essa parte dos exercícios parece se desenrolar de forma objetiva: forças do país estão sendo transportadas por aviões até as bases no Ártico e diversos exercícios navais estão acontecendo, incluíndo operações antissubmarino e procedimentos de contraminagem que normalmente antecedem as incursões surpresa de submarinos de ataque em situações de conflito.

Ações falam mais que palavras

Porém, apesar de Moscou ter dado mais foco às operações na região polar, as atividades se expandiram até a fronteira com a Finlândia, além do envio de armamentos estratégicos para Kaliningrado e para a Crimeira, posicionamentos das Frotas do Báltico e Mar Negro, e atividades nos distritos militares no oeste e sul do território. Essa combinação eleva os exercícios de um simples deslocamento de forças terrestres e manobras navais no Ártico para uma narrativa atômica.

O deslocamento avançado dos Iskander e dos bombardeiros são indicadores provocativos de uma possível ação preemptiva contra a OTAN no Leste Europeu. Dados os desdobramentos militares da Ucrânia, a possibilidade, por menor que seja, de que o país expanda a área de operações não pode ser descartada. Por isso, e por Moscou ter concebido essas manobras para simular uma guerra com a Europa, as ações geraram desconforto no continente.

Ao empregar os Tu-22M3, a Rússia também invocou abertamente a ameaça de confronto nuclear. Considerando as declarações de Moscou sobre o possível uso de armas atômicas na Crimeia, o país está claramente conectando a crise ucraniana e suas intensões no Ártico aos agentes nucleares de dissuação em seu arsenal.

Extensão geográfica é o fator novidade

A vastidão geográfica das atividades russas vai contra o padrão de outros exercícios surpresa conduzidos pela Rússia. Além de colocar as forças do país nas mesmas regiões em que a OTAN vem realizando suas próprias manobras, incluíndo os Balcãs, e próximo à Romênia e à Hungria. As ações mais notáveis da Organização foram conduzidas sob liderança dos Estados Unidos. A operação Atlantic Resolve, que teve a rotação de um contingente do Exército americano do tamanho de uma brigada, além da chegada de blindados e helicópteros para apoiar o desembarque das tropas. Moscou também percebeu o aumento dos voos de vigilância americanos sobre os Bálcãs e reforço no controle de espaço aéreo que a OTAN já exercia na região.

Exercícios que mobilizam contingents russos das Frotas do Norte, Báltico e Mar Negro, além das zonas oeste e sul do país são notáveis. Moscou já realizou ações maiores nopassado. Porém, elas costumavam se concentrar em um distrito militar ou frota específica, ou combinação de unidades militares próximas. Orquestrar essa única ação em uma área que vai da Noruega aos Bálcãs passando pela Polônia e chegando à Crimeia é um recado claramente direcionado à OTAN e seus membros no Leste Europeu.

Considerando as tensões militares cercando a crise ucraniana e o frágil cessar-fogo, as manobras das forças russas são um sinal agressivo, em especial porque acontecem logo após o sumiço de Vladimir Putin na semana passada.  Moscou tem interesse em exibir sua força para lembrar a todos do quanto pode causar tumulto e dissuadir qualquer adversário de atitudes radicais em relação à Ucrânia. Os Estados Unidos vem sendo cautelosos com Kiev, chegando até mesmo a atrasar o envio de 300 soldados para o oeste do país como parte de um exercício militar. Porém, os EUA mantém que as tropas serão enviadas mesmo assim, no começo de abril.

Além de Kiev em particular a Rússia também está reagindo militar à dinâmica das manobras no Leste Europeu em geral, onde a crise ucraniana repercutiu. Um aumento geral no ritmo das atividades militares russas (tanto em termos de voos estratégicos de longo alcance quanto manobras de larga escala). Os resultados foram aumento na presença da OTAN e mais atividades no leste da Europa – um cabo de guerra com demonstrações de força que lembram a época da Guerra Fria.

Nesse contexto, os exercícios militares conduzidos pela Rússia este mês representam uma ameaça às forças opositoras, demonstram capacidades e deixam claras quais as intenções de Moscou. As atividades também são um elemento importante para as Forças Armadas do país. Para manter a prontidão, realizar efetivamente operações e deslocamentos através dessas manobras é fundamental. Além disso, os estrategistas russos precisam de um entendimento realista das capacidades bélicas nacionais. Não há forma melhor de ter esse entendimento do que deixar que as tropas passem por operações, ou parte delas, para determinar os parâmetros básicos do que é realmente possível fazer.

Enquanto a Rússia testa seus próprios meios, também mostra ao mundo o tipo de operações e que locais considera importantes em seu planejamento estratégico.

__________________________________________________________

Aliança Militar do Ocidente, uma ova!

A OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO – North Atlantic Treaty Organization, em inglês) é relatada, ultimamente, pela mídia, ora como “Aliança Atlântica”, ou como “Aliança Militar do Ocidente”.
Chamar a OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte, simplesmente, de “Aliança Atlântica”, não só é incorreto como inadequado – além de muito suspeito.
A OTAN é uma aliança, como seu nome diz, referente apenas aos países do “Atlântico Norte”, englobando apenas as nações banhadas por aquela parte do Oceano Atlântico, podendo-se entender que o Mar Mediterrâneo faz parte do mesmo, o que é muito discutível – e não abrangendo todos aqueles no âmbito de todo o Atlântico (inclusive do Atlântico Sul). Se assim fosse, envolveria também os países do Hemisfério Sul banhados pelo “Mar Tenebroso” – os quais, como se sabe, não fazem parte da OTAN.
A ata de fundação da OTAN foi assinada por 12 países e hoje fazem parte dela 28. Os últimos a entrar foram Albânia e Croácia, em abril de 2009. Confira a lista:

Albânia, Alemanha, Bélgica, Bulgária, Canadá, Croácia, Dinamarca, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Estônia, EUA, França, Grécia, Holanda, Hungria, Islândia, Itália, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, Noruega, Polônia, Portugal, Reino Unido, República Tcheca, Romênia e Turquia.

Da mesma forma, como quase sempre é noticiado na TV, chamar a OTAN de “Aliança Militar do Ocidente”, é pior ainda, mormente se se estiver falando sobre a Líbia, pois esta já está, de fato, no Ocidente Africano e, portanto, poderia ou deveria fazer parte da OTAN – mas não faz – tanto que a OTAN a está atacando.
Além disso, dizer que a OTAN é uma “aliança militar do Ocidente” também induz a pensar que a América Latina (e também a África Ocidental) faz parte dela, o que também não é verdade – e o que, provavelmente, nunca deverá acontecer.

Denominações suspeitas

Essas duas formas de denominar a OTAN, ao que parece, são induzidas junto à opinião pública de propósito, a fim de que as nações se sintam, digamos… mais à vontade e/ou mais conformadas, sem questionar muito a validade da competência da OTAN quanto ao espectro de sua atuação institucional, que então estaria, séria, clara e ilegalmente desvirtuada, quando, eventualmente, ela relizar intervenções em países que não fazem parte do seu agrupamento – como está acontecendo na Líbia, ou abaixo do Equador – o que poderá acontecer na América Latina e em outros países da África. Isso sem se contar com sua atuação muito longe do Atlântico, embora no Mediterrâneo, como aconteceu nos Bálcãs (a antiga Iugoslávia não pertence à OTAN) – e que poderá acontecer nos países do Oriente Médio, onde, provavelmente, sua próxima vítima (não que não mereça) será a Síria, que, embora em pequena parte banhada pelo Mediterrâneo, não faz parte da OTAN.

A Quarta Frota dos EUA

Não nos devemos esquecer da reativação da Quarta frota dos Estados Unidos, a partir de 2008, o que significa o retorno da Marinha de Guerra dos EUA ao Atlântico Sul, sob o pretexto de «assistência humanitária, apoio às operações contra o narcotráfico e a preocupação dos EUA quanto a alguns governos da América Latina».
A composição provável da IV Frota (segundo o site http://www.defesabr.com), contará com até 24 navios, muitos eventualmente vindos de outras esquadras, como a II Frota (Atlântico) e a III Frota (Pacífico) — unidades fixas: dois navios de assalto anfíbio da Classe WASP; sendo o primeiro deles o LHD 3 Kearsarge e um navio-hospital; unidades realocáveis : quatro cruzadores, quatro destróieres, e treze fragatas.
Justificar a eventual ação da Quarta Frota argumentando que ela se deve à «assistência humanitária, apoio às operações contra o narcotráfico» é piada, mas quanto a «preocupação dos EUA quanto a alguns governos da América Latina», a coisa é séria. “Preocupação” significa a atuação de governos que, de alguma forma, coloquem em risco a segurança do “povo norte-americano”, não só sua proteção física, mas, principalmente, sua proteção econômica. E também, hoje em dia, levando em consideração a proteção relativa ao meio ambiente, caso alguma situação possa a vir ameaçar os EUA, essa “proteção” vai longe…
Isso sem se falar na clara espionagem relativa às nossas reservas petrolíferas do “pré-sal”.

O que é a Quarta Frota

Em seguida, informações sobre a Quarta frota, publicadas na Wikipédia:

«A Quarta Frota dos Estados Unidos (U.S. 4th Fleet) é uma divisão da Marinha dos Estados Unidos da América responsável por operações no Atlântico Sul, atuando como um componente do Comando do Sul e desde 1° de junho de 2009 comandada pelo contra-almirante Victor G. Guillory. O Comando da Quarta Frota encontra-se na Base Naval de Mayport, em Jacksonville, Florida e é responsável pela operação de cerca de 15 mil homens, e duas dúzias de navios, e aeronaves embarcadas da marinha americana atuantes no Caribe, América Central e do Sul.»
«A Quarta Frota foi estabelecida em 1943, durante a II Guerra Mundial, juntamente com outras frotas numeradas. Mais tarde, foi absorvida pela Segunda Frota e desmobilizada em 1950. Em março de 1943, um destacamento aéreo da Quarta Frota foi transferido para a cidade de Natal, Rio Grande do Norte, a fim de realizar operações de patrulhamento no Atlântico Sul.»
«Em abril de 2008, foi anunciado o retorno das operações da Quarta Frota. Embora o governo americano tenha argumentado que a iniciativa não amplie a presença naval americana na área e o objetivo seja o de colaborar com o combate ao narcotráfico, vigilância e monitoramento das novas reservas de petróleo do pré-sal brasileiro, interações militares e treinamento bilateral e multinacional, o anúncio gerou inquietação entre lideranças da América Latina.»


LHD 3 USS Kearsarge, navio de assalto anfíbio, de 41.100 toneladas (257 m de comprimento, 24 nós, 1893 tripulantes, 22 helicópteros Bell V-22 Osprey, 5 jatos Harrier II e mais 6 helicópteros SH-60F/HH-60H, além de vários tipos de mísseis).

Reclamações pertinentes

«Os governos da Argentina e do Brasil, fizeram inquéritos formais quanto à missão da frota na região. Na Venezuela, Hugo Chávez acusou os Estados Unidos de tentar amedrontar o povo da América do Sul com a reativação da frota, e prometeu que os novos aviões Sukhoi Su-30 de seu país poderiam afundar quaisquer navios norte-americanos invadindo águas venezuelanas. O ex-presidente cubano Fidel Castro advertiu que poderiam ocorrer mais incidentes, tais como a intervenção colombiana no Equador.»

 

Lula pediu explicações dos EUA sobre Quarta Frota

Adiante, parte da reportagem de Márcia Carmo, de 02/07/2008, da BBC Brasil, em San Miguel de Tucumán (Argentina), publicada na Folha.com.

«O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse, nesta terça-feira, que quer explicações dos Estados Unidos sobre a Quarta Frota da marinha americana, que reapareceu nas águas da América Latina quase 60 anos após ter sido desativada. Pedi ao ministro (das Relações Exteriores) Celso Amorim que pedisse à secretária de Estado americana (Condoleezza Rice) informações sobre os objetivos desta Quarta Frota— disse Lula, em entrevista coletiva no encerramento da 35ª Reunião de Cúpula do Mercosul, na cidade argentina de San Miguel de Tucumán.»
«A Quarta Frota da marinha dos Estados Unidos, criada em 1943 diante da ameaça nazista, havia sido desativada em 1950. A partir desta terça-feira, a unidade voltou a realizar operações nos mares da América Latina.»
«Nós agora descobrimos petróleo em toda a costa marítima brasileira, a 300 quilômetros da nossa costa, e nós, obviamente, queremos que os Estados Unidos nos expliquem qual é a lógica desta Quarta Frota — afirmou Lula. Nós vivemos numa região totalmente pacífica — disse o presidente, ao afirmar que a única guerra na região é contra a pobreza e a fome. Se fosse frota de navios de alimentos, de navios de sementes, seria até razoável. Mas eu penso que isso o ministro Celso Amorim haverá de ter uma resposta da Condoleezza — disse.»

Críticas

«A reativação da Quarta Frota provocou críticas de líderes latino-americanos, como o cubano Fidel Castro e o presidente da Bolívia, Evo Morales. Lula falou sobre o tema ao ser questionado sobre declarações feitas durante a reunião de cúpula pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que condenou essa presença da marinha americana na região. Alguns analistas afirmam que o objetivo da medida seria controlar países da região com governos considerados “incômodos” por Washington, especialmente a Venezuela.»
«Porta-vozes militares americanos afirmam que a reativação da Quarta Frota não significa uma mudança de estratégia do país. Segundo os Estados Unidos, trata-se de um ajuste operacional sem intenções agressivas, para melhorar a capacidade operativa no combate ao narcotráfico, manejo de desastres naturais e trabalhos de cooperação.»

Pré-sal

«Na entrevista ao final da reunião, o presidente Lula disse também que o Brasil vai começar a tirar os primeiros barris de petróleo da camada pré-sal no Estado do Espírito Santo em setembro. Em setembro deste ano vamos começar a fazer exploração experimental no Espírito Santo, numa área que foi descoberta recentemente pela Petrobras — afirmou Lula. E também vamos começar a fazer exploração experimental, com 20 mil barris, em Tupi, em março do ano que vem — disse.»
«O Brasil tem um potencial energético razoável e ainda não temos o petróleo da Venezuela, mas já encontramos a quantidade suficiente para nos dar tranquilidade — disse Lula.»

__________________________________________________________

A quarta frota e os senhores da guerra

“A guerra, no século 21, poderá não ser tão sangrenta quanto foi no século passado. Mas a violência armada, criando sofrimento e perdas desproporcionais, continuará onipresente e endêmica – ocasionalmente epidêmica – em grande parte do mundo. A perspectiva de um século de paz é remota”. Essa foi a conclusão proposta pelo historiador Eric Hobsbawm, no ensaio Guerra e Paz no século 20, que foi publicado no jornal britânico “The Guardian”, em fevereiro de 2002.

Por Joanne Mota*

Uma década depois, essa afirmação nunca pareceu tão atual nestes tempos de imperialismo agressivo, que tem nas potências belicistas mundiais sua maior fonte de poder. A militarização norte-americana se converte como o maior símbolo desse processo, que gera insegurança e se conforma como uma ameaça constante às soberanias nacionais dos países menos desenvolvidos, sobretudo os que possuem grandes potenciais energéticos e de recursos naturais.

Em meio a esse projeto de recolonização mundial, o capital monopolista se internacionaliza, vai além de suas fronteiras. Para tanto, necessita e obtém o que Vladimir Lênin denominou de fenômeno da dependência, advindo do entrelaçamento do domínio econômico-financeiro com o político e territorial.

Não foi por acaso que, no final do século 20, o então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, cria a chamada “Nova Ordem Mundial”, uma estratégia que se converteria em um plano de dominação global. Em artigo publicado durante a Conferência Internacional “A integração Latino-americana e a Luta pela Paz”, organizada pelo Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz), o jornalista e escritor José Reinaldo Carvalho discute as estratégias norte-americanas para a recolonização do mundo.

Segundo ele, criar a “nova ordem” nada mais foi do que consolidar meios e modos que se converteriam em um projeto que percorreria “o novo século americano”. Esse projeto implicou em diversos conflitos e agressões que destruíram nações e reorganizaram o cenário geopolítico mundial.

O jornalista frisa que o contexto atual se caracteriza por uma “acumulação militar global”, guiada por uma superpotência mundial que está utilizando seus aliados para desencadear numerosas guerras regionais. Alguns exemplos citados são as agressões ao Afeganistão e ao Iraque.

“Países independentes, como a Síria, o Irã e a República Popular Democrática da Coreia, por motivações diversas foram alvo de campanhas e ameaças de agressão. Todos os acontecimentos que estão em curso no mundo ligados a conflitos políticos e militares estão relacionados com uma luta, a luta das potências imperialistas, sobretudo as capitaneadas pelo imperialismo estadunidense, que exerce controle e dominação sobre o mundo”, diz José Reinaldo.

Quarta Frota

De acordo com Igor Fuser, professor da Faculdade Cásper Líbero, a América Latina não ficou de fora desse processo. O relançamento da Quarta Frota, por exemplo, simboliza um novo olhar das nações imperialistas sobre esta região. “A Casa Branca sempre considerou a América Latina como um ‘quintal’ dos Estados Unidos e durante muito tempo logrou estabelecer na região um domínio amplo e relativamente estável, alicerçada em forte aliança com as classes dominantes domesticadas. O controle político e econômico do ‘quintal’ está ligado ao acesso a ricas fontes de recursos naturais e energéticos, com destaque para o petróleo”.

Segundo ele, a questão energética é estratégica para as nações imperialistas. “Já na época do ex-presidente Jimmy Carter, a doutrina militar norte-americana estabelecia que qualquer tentativa de impedir o fluxo de petróleo para os EUA seria respondida com a guerra. Venezuela e Brasil, por exemplo, são países ricos em petróleo, e as suspeitas de que a reativação da Quarta Frota tem a ver com a descoberta do pré-sal e com a revolução bolivariana na Venezuela são procedentes”, elucida o pesquisador.

Corrida armamentista

Dados dos últimos 50 anos, publicados em 2008 pela Organização das Nações Unidas (ONU) revelam que há ações militares dos Estados Unidos em praticamente todos os países do globo. Segundo o relatório, 55 países possuem bases militares sendo utilizadas pela Aeronáutica, Marinha ou Exército norte-americano. Além disso, o relatório aponta a existência de mil bases norte-americanas no exterior, destas 268 estão na Alemanha e 124 no Japão.

O relatório também apontou que, no final de 2008, os EUA mantinham aproximadamente 550 mil soldados no exterior. Esse número é 10% superior ao de 1985, no auge da chamada Guerra Fria, o que demonstra que o complexo industrial-militar norte-americano encontrou justificativas para a manutenção, e mesmo expansão do poderio bélico do país, ainda que em fase de distensão do quadro político internacional.

Segundo dados da ONU, publicados em 2011, os gastos militares dos EUA representaram cerca de 50% dos gastos globais em 2010. Seus aliados, vinculados à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), despenderam aproximadamente 28% dos aportes em defesa, no mesmo ano. Assim, os EUA e aliados responderam, em 2010, por aproximadamente 80% dos dispêndios militares globais.

Sobre essa militarização em massa, Socorro Gomes, presidente do Conselho Mundial da Paz e do Cebrapaz, destaca que as nações antiimperialistas têm no seu caminho um desafio, sobretudo no que se refere à luta contra as guerras e pela paz.

“É preciso ter consciência e entender a natureza do sistema que há, hoje, nos EUA e nas grandes potências da OTAN. É preciso ter consciência da sua prática de domínio, de terror e de saque infringida às nações menos desenvolvidas, ou menos poderosas militarmente. Uma das respostas que podemos dar contra essa ofensiva se materializa nas campanhas contra as bases militares e contra a OTAN, nas denúncias contra essa política militarista e agressiva dos Estados Unidos e dos seus aliados”, explana Socorro Gomes.

Mare Nostrum: um olhar ianque sobre a América Latina

Desativada por mais de meio século, a Quarta Frota da Marinha dos EUA, poderoso instrumento de intervenção bélica criado durante a 2ª Guerra Mundial, em 1943, para patrulhar o Atlântico Sul e que inclui vários navios de diversos tamanhos, submarinos e um porta-aviões nuclear, foi restabelecida em junho de 2008 com o propósito “anunciado” de combater o tráfico de drogas, auxiliar em desastres naturais e atuar em missões de paz na América Latina e no Caribe.

No entanto, para o deputado Ángel Barchini, representante do Paraguai no Parlamento do Mercosul (Parlasul), a reativação da Quarta Frota foi desnecessária. Segundo ele, “a presença militar norte-americana foi e é entendida como ameaça à soberania da região. Além de demonstrar a preocupação estratégico-militar de Washington para com a América do Sul e África Ocidental, e como os interesses norte-americanos tendem a se fazer ainda mais presentes nessas regiões em um futuro próximo”.

Socorro Gomes afirma que a reativação da Quarta Frota, bem como todo o processo de militarização, se dá justamente na busca de controlar os recursos naturais das nações menos desenvolvidas. Ela cita como exemplo a questão da Amazônia, região rica em biodiversidade e que estimula a cobiça por parte de diversos países. Segundo ela, “a biodiversidade, a água, os minérios nobres, e agora o pré-sal, são fatores mais que suficientes para estimular a ambição das nações desprovidas destes recursos”.

A dirigente acrescenta que, além da Quarta Frota, é preciso refletir sobre o papel da OTAN no mundo. “Um braço extremamente armado dos EUA, dono de aparatos militares modernos, que se coloca acima da ONU, como se possuísse um mandato para realizar suas incursões. Essa organização está presente em diversos países, e um exemplo latente de sua força é a sua presença nas Ilhas Malvinas”, ressalta Socorro.

Quarta Frota e o Pré-sal

O ex-presidente da Agência Nacional do Petróleo, Haroldo Lima, em entrevista à “Agência Brasil”, no final de 2011, externou sua preocupação com a ofensiva norte-americana e com a possibilidade de os EUA contestarem a posse brasileira sobre as enormes reservas petrolíferas na chamada ZEE (Zona Econômica Exclusiva).

Segundo a Convenção da ONU sobre a Lei do Mar (acordo internacional que estabelece o limite dos mares territoriais de cada nação costeira firmada em 1994), os Estados litorâneos têm direitos exclusivos sobre todos os recursos naturais do seu litoral numa faixa de até 200 milhas náuticas (370 km). No entanto, os EUA não são signatários da Convenção da ONU sobre o Direito do Mar, o que abre brechas para discussões.

Socorro Gomes afirma que o não-reconhecimento das definições da ONU sobre o Direito do Mar, por parte dos Estados Unidos e das demais potências imperialistas, faz parte do posicionamento estratégico dessas nações, que por meio de ameaças, de terrorismo e pressões tentam sanar seus problemas e controlar e saquear os recursos das nações menos desenvolvidas militarmente.

Ela acrescenta que a militarização e a proliferação de bases militares, em diversas regiões do globo, sinalizam às nações latino-americanas a necessidade de concentrarem esforços para repensar suas políticas de segurança e garantir sua soberania frente a uma possível ameaça de agressão.

“Hoje, se alguém encostar aleatoriamente o dedo sobre o mapa do mundo, por certo indicará alguma base militar das grandes potências. São tantas as instalações belicistas dos Estados Unidos e da OTAN que todos os países do mundo são vigiados e intimidados de perto a todo instante”, declara a presidente do Cebrapaz.

Soberania Nacional

Ao passo em que as nações imperialistas empreendem sua estratégia de agressão, a América Latina há mais de uma década vive um processo de mudanças. Cresce a luta por sua soberania, por direitos e o bem-estar de seus povos.

Para José Reinaldo, esse processo de mudança está intimamente ligado ao processo de mudança do quadro político, com a ascensão de governos progressistas. ”A renovação do quadro político na América Latina, que tem como marco de formação a vitória de Hugo Chávez, em 1998, e depois a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, além das sucessivas vitórias das forças progressistas latino-americanas, mudaram, inteiramente, o quadro político do continente. Essa mudança foi essencial para que a nossa região perdesse, em definitivo, a qualificação de ‘quintal’ dos Estados Unidos”, explana.

Segundo ele, diante de todo esse cenário, os EUA reativaram a Quarta Frota como fator de chantagem e de pressão. “Uma violência latente, que manda um recado: ‘Não avancem tanto, pois nós estamos aqui’”.

Socorro Gomes reafirma que “a ampliação da presença militar americana na região busca, além de intimidar os processos políticos de transformação na região, posicionar sua força bélica em zonas estratégicas de grandes riquezas naturais. Trata-se de um verdadeiro atentado à paz, à segurança e à soberania de todos os países da região. Por isso, a América Latina tem avançado na busca da integração solidária, na busca de construção de políticas de segurança conjuntas. O reflexo dessa busca pode ser visto na ascensão de governos comprometidos com estas posições, comprometidos com esta soberania”.

Sobre a ascensão dos governos progressistas, a presidente do Cebrapaz afirmou que esta só se concretizou graças às lutas populares empreendidas pelos povos de nosso continente. “Essa mudança no cenário político abre caminho para a luta, para a resistência a essa hegemonia e para a construção de possibilidades, de soberania, de independência, de desenvolvimento social, de progresso e de integração entre as nações que sofrem com os mesmos problemas”, finaliza.

*Jornalista da redação do Vermelho,  Pós-graduanda em Globalização e Cultura

Fonte: Publicada originalmente na Revista Visão Classista

Anúncios
Esse post foi publicado em Geopolitíca. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s