‘Vamos crescer mais no exterior que no Brasil’

Empresa catarinense, que já arrecada 51% da receita lá fora, prevê aumento dessa proporção em 2015

FERNANDO SCHELLER

Um dos raros exemplos de indústria exportadora brasileira, a catarinense Weg – uma gigante que faturou R$ 7,8 bilhões no ano passado – prevê que, com a crise econômica brasileira, vai depender cada vez mais do mercado externo para garantir sua meta de crescimento de 17% ao ano. Em 2014, a participação das receitas nas subsidiárias internacionais foi de 51%. Para o presidente da empresa, Harry Schmelzer Jr., essa proporção só tende a aumentar. “Nós vamos crescer mais no exterior do que no Brasil. A Weg é uma empresa global e, para crescer, não pode produzir em um lugar só.”

O executivo explica que a opção da Weg de produzir no exterior não está relacionada apenas ao acesso a novos mercados, mas também a custos. A empresa diz que as unidades no México, na China e na Índia são mais competitivas e têm custos menores do que o da matriz brasileira. Em relação ao ajuste fiscal, Schmelzer Jr. diz que o corte nos gastos do governo é necessário. No entanto, ele questiona os métodos, que sempre parecem penalizar o setor produtivo. “Não dá para fazer só de um lado: o governo precisa fazer o ajuste, mas as empresas não podem pagar a conta agora e continuar pagando mais tarde”, afirma. “Acho que o governo tem de ser mais ousado em pensar como pode gastar menos.”

Veja os principais trechos da entrevista ao Estado:

Como referência em equipamentos industriais, a Weg vê um processo claro de desindustrialização no País?

Todos os dados mostram que a indústria brasileira não vem crescendo. Muitas indústrias deixaram de participar do mercado por várias razões. O Brasil vem perdendo espaço de maneira significativa em bens de capital. O Brasil tentou promover a retomada da indústria com incentivos na parte de inovação e com financiamentos vantajosos, mas isso só beneficiou setores específicos. A visão deve ser de uma política industrial que favoreça (o acesso) ao mercado brasileiro, mas que também crie competência e capacidade de competir internacionalmente. A Weg começa sempre desenvolvendo o mercado brasileiro. Depois que se consolida aqui, agrega valor com engenharia e desenvolvimento. E aí vai para o mercado internacional.

A política industrial deve ‘premiar’ a capacidade de competição externa de um determinado negócio?

O Brasil tem de começar a pensar de uma forma diferente. Sou a favor (das cotas) de conteúdo nacional. Mas, no setor de trens e metrôs, por exemplo, não enxergo chance de o Brasil desenvolver uma indústria para exportar esses produtos no médio prazo. Acho que o Brasil poderia competir em ônibus elétricos, pois a Weg produz tecnologia e nós temos grandes empresas de carroceria.

Hoje, algumas indústrias dependem tanto do mercado interno que entram em dificuldade assim que a economia brasileira se desaquece.

As indústrias precisam participar do mercado internacional e ser competitivas globalmente. Essa visão está faltando. Não adianta incentivar (uma multinacional) a vir para cá só para atender o mercado brasileiro. É importante oferecer essa oportunidade no mercado nacional, mas é preciso dar incentivo para que ela pense em exportar a partir do Brasil. Se não for assim, as empresas vão se instalar e brigar com o governo para importar o máximo (de componentes). A empresa vai manter toda a sua cadeia de fornecimento lá fora, mas vai ganhar dinheiro no mercado brasileiro.

Mas a competitividade nacional não passa pela redução da carga tributária e do custo Brasil?

Esse é outro problema. Infelizmente as políticas econômicas brasileiras não vêm ajudando muito a motivar esse desenvolvimento. Tem várias formas de reduzir custos. O Brasil estava indo na direção da desoneração da folha de pagamento e do Reintegra (programa de crédito para exportadores). Agora tudo está sendo revertido.

Com todas essas amarras, como a Weg consegue ser produtiva lá fora?

A Weg tem uma indústria de altíssima escala no Brasil. A expansão no mercado internacional independe se o dólar está a R$ 1,60 ou a R$ 3. Isto dito, os custos no Brasil são superiores aos do México, da China e da Índia – três locais onde nós produzimos. Isso vale para a mão de obra e para a matéria-prima. Nós começamos produzindo localmente, depois passamos a exportar e, finalmente, a produzir no exterior. Hoje, a nossa escala é maior aqui, temos uma grande cadeia de fornecedores. Mas, para realmente crescermos no mercado internacional, precisamos aumentar nossa produção fora do País.

Em 2014, a receita da Weg arrecadou 51% de sua receita no exterior. Essa fatia vai continuar a crescer?

Sim, vai aumentar. Nós vamos crescer mais no exterior do que no Brasil. A Weg é uma empresa global e, para crescer, não pode produzir em um lugar só. Temos de estar presente em todos os lugares. O dólar a R$ 3 até permite que eu aumente a velocidade (deste processo). Mas o dólar valorizado aqui dentro não vai promover uma mudança radical no cenário da indústria brasileira de bens de capital. Uma empresa não vai conseguir vender máquinas lá fora só porque o dólar está a R$ 3. Os clientes não vão simplesmente começar a comprar o produto se não conhecerem a empresa, sua capacidade de entrega, a qualidade do produto e a marca.

A Weg vê um cenário de crise?

O mercado brasileiro vai ser desafiador. O mercado internacional também não está maravilhoso, porque os setores de óleo e gás e petróleo vão adiar investimentos.

No Brasil, o mercado de energia pode compensar parte da retração das vendas de máquinas a indústrias?

O mercado de energia vai ter muitas oportunidades. Já ocorreu em 2014 e vai se repetir em 2015. Apesar de toda a dificuldade financeira dos investidores na área de energia, a escassez vai falar mais alto. Enquanto alguns mercados caíram, como o de biomassa, voltaram os leilões específicos para PCHs. A Weg entrou em eólicas e também estamos chegando à energia solar. Energia conservada é outro negócio que passará a ser importante. Essa economia pode vir com a troca de equipamentos. Os motores industriais antigos, com mais de 15 anos, podem representar uma economia de consumo de energia de até 6,5% caso sejam substituídos por mais modernos. É como trocar um Galaxy velho por um veículo novo. Esse investimento é muito menor do que na adição de novas capacidades de energia. Tudo indica que não teremos falta de energia em 2015 por causa da demanda franca. Mas ninguém sabe como vai ser 2016. E o investimento (em energia) também se justifica pelos preços, que estão altos, e tudo indica que devem permanecer assim pelos próximos três ou quatro anos.

A cifra a ser investida no Brasil este ano será equivalente aos R$ 428 milhões de 2014?

No Brasil, vamos fazer investimentos em projetos de energia solar, eólica e também estamos entrando em no-breaks (sistemas de segurança para energia). Os grandes investimentos em aumento de capacidade produtiva não serão aqui, mas na China e no México. Temos um projeto de expansão significativo em motores elétricos, na ordem de US$ 135 milhões no México e de US$ 210 milhões na China.

Quais mercados serão atendidos a partir da China e do México?

São duas visões. O investimento no México é uma forma de crescermos no mercado americano. E o investimento na China, particularmente, é para acessar o próprio mercado chinês, que é gigante.

Qual é a estratégia por trás das aquisições da Weg no exterior?

Essas aquisições vêm para complementar nossa oferta. Elas representam a entrada da Weg em um determinado mercado ou trazem novas tecnologias. Por exemplo, no ano passado compramos uma fábrica de motores na Alemanha. Buscamos um mercado que não é desenvolvido no Brasil, mas é grande na Europa, que é o de motores de alta velocidade. Fazemos até motores para motocicletas elétricas. Na China, compramos uma fábrica de motores para máquinas de lavar roupa. A razão para a compra não foi o custo de produção – se fosse isso, eu poderia desenvolver minha própria fábrica. A razão é que eles estão num segmento de máquinas ‘top’, que ainda não são feitas no Brasil, mas são realidade nos Estados e na China. Se um dia esse produto vier para cá, a Weg será o principal player. A FTC, da Colômbia, é uma empresa que ajuda na internacionalização da nossa área de automação, que começamos a consolidar a partir do Brasil. Essa empresa já tem conhecimento no mercado da Colômbia, então vou dar um passo adiante com ela.

A estratégia tem sido comprar pequenas e médias empresas. Isso quer dizer que grandes aquisições estão descartadas?

A maioria das compras é de empresas pequenas e médias. Isso porque a Weg vai pegar essas estruturas e fazê-las crescer. Mas não quer dizer que não possamos fazer aquisições maiores, embora a Weg não persiga grandes tacadas. Nosso planejamento estratégico prevê um crescimento contínuo, de forma sustentável, de 17% ao ano em reais (a receita da empresa avançou 14,8% no ano passado). Desse crescimento, a ideia é que dois terços venham de expansão orgânica e o restante das aquisições.

A Weg mantém um negócio de tintas, bem pequeno em relação aos demais. Ele pode ser vendido?

Nosso negócio central é o de máquinas elétricas e de automação para indústrias e sistemas de energia. A Weg tinha um negócio de tintas comerciais, de pintar parede, e se desfez disso, mas ficou na área de tintas industriais. A área não tem sinergia tecnológica com os demais setores, mas há sinergia comercial. Os fabricantes de equipamentos que compram os nossos motores também compram tintas. Nós não temos intenção de vender (a área de tintas).

Como a empresa avalia o atual ajuste fiscal? É um ‘aperto’ necessário para a economia do País?

Eu não posso te dizer que estou de acordo com tudo o que está sendo feito. O governo brasileiro não tem como suportar a situação que está, vamos ter de passar pelo ajuste fiscal. Não adianta a gente continuar se iludindo que dá para continuar gastando quando se não tem dinheiro. Eu não tenho ideia de quanto vai ser essa dose, o quanto o Brasil pode suportar em termos das consequências deste ajuste. Mas lamento que normalmente o ajuste vem tirar coisas que estão sendo importantes hoje, como a desoneração da folha e o Reintegra.

Ou seja: o setor produtivo é penalizado mais uma vez?

Para mim, retirar esses benefícios é aumentar impostos, é desfavorecer quem exporta, quem tenta trazer dinheiro de outros lugares. Tiraram o Reintegra, mas eu espero que esse programa retorne. E acho que o governo tem de ser mais ousado em pensar como pode gastar menos, senão as coisas não vão se resolver. Não dá para fazer só um lado: o governo precisa fazer o ajuste, mas as empresas não podem pagar a conta agora e continuar pagando mais tarde.

O que pode ser feito para que o crescimento retorne rapidamente?

Acho que a solução do Brasil passa pelo incentivo ao investimento em infraestrutura, mas com regras claras e definidas. Depois do ajuste fiscal é necessário abrir uma frente para motivar investidores a apostar na infraestrutura brasileira. Está se falando em medidas, mas precisa ser rápido, para impedir a queda da atividade econômica. E a atividade econômica cai quando há desemprego, há medo. Todo mundo começa a frear. Se o governo fizer reformas com velocidade, o astral melhora. Todo mundo sabe o que precisa ser feito, mas um problema persiste: como fazer?

 

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