Petróleo: mercado arde e as petrolíferas conspiram

Rússia, Irã e Venezuela são os mais afetados hoje, mas se a indústria do xisto não paga os empréstimos aos bancos, está formada a crise mundial.

Najar Tubino

Trata-se de uma trama para jogar a humanidade cada vez mais no buraco. É um jogo extremamente perigoso, mas que faz parte da indústria petrolífera mundial, desde que furaram o primeiro poço na Pensilvânia no século XIX. Primeiro ponto: até a década de 1950 as chamadas Sete Irmãs – Exxon, Mobil, Shell, BP, Chevron, Texaco e Gulf Oil – detinham 55% da produção mundial. Com exceção da Shell, anglo-holandesa, as outras são petrolíferas nascidas nos Estados Unidos, na verdade quase todas descendentes do primeiro truste do mundo montado por John Rockfeller. Hoje são quatro “majors” e elas detêm 10% da produção e 5% das reservas mundiais. Os dados são do professor da Escola Politécnica da UFRJ, Marcelo Marinho Simas, que também integra o corpo técnico da Petrobras.

O trabalho elaborado por ele chamado “O Novo Papel das National Oil Companies” cita as maiores consultorias do setor, como a Accenture e a PFC Energy que mostram a nacionalização das reservas petrolíferas mundiais – 77% das reservas de petróleo e 51% das reservas de gás. Até a década de 1970, antes do embargo dos árabes de 1973, as Sete irmãs nadavam de braçada, faziam o que queriam no Oriente Médio, no Golfo Pérsico, era a “bandeira na frente e os negócios”, como diziam os executivos. O trânsito era livre, porque mesmo pagando apenas 50% dos contratos aos governos ou monarquias locais, as corporações manipulavam a tecnologia. Apenas em 1976, que os sauditas assumiram o controle da Aramco, uma petrolífera montada com quatro sócios estadunidenses. Conforme relato do livro de Daniel Yerguin – Petróleo, um dossiê de quase mil páginas.

Corporações precisam de reservas

Então as corporações precisam de novas reservas. Claro que tiveram que investir nas areias de piche de Alberta, no Canadá, no xisto betuminoso de Dakota do Norte e do Texas, e em águas profundas na África, no sudeste asiático e no Brasil. Em setembro do ano passado, um relatório da Agência de Informações de Energia dos Estados Unidos criticava a posição do Brasil por nomear a Petrobras como única operadora do pré-sal, com exigências de 60% local nos conteúdos dos equipamentos. “as operadoras reclamam para si o direito de operarem no pré-sal”, registra uma matéria do Brasil Econômico de setembro de 2014.

Como diz o professor Marcelo Simas as “IOCs” – International Oil Companies – precisam redefinir seu papel no mercado mundial, ou se tornarão prestadoras de serviços de alta tecnologia para as companhias nacionais. É preciso esclarecer que o negócio do petróleo rende lucros altos em dois segmentos: exploração (extração) e na produção, que os técnicos chamam de “upstream”. O restante, refino, comercialização, distribuição e varejo chamado de dowstream, o retorno é baixo. A vantagem da Arábia Saudita está neste fato: custo de produção de no máximo 10 dólares por barril, enquanto um barril do xisto custa entre 50 e 70 dólares e das areias de piche (betuminosas) entre 70 e 90 dólares. No caso do pré-sal, ou exploração em águas profundas, o custo é de 60 a 80 dólares.

Estados Unidos inflaram reservas de xisto

Porque o mercado arde? Esta semana a cotação do barril Brent fechou abaixo dos 50 dólares. O economista francês Jacques Safir, diretor de pesquisa da Escola Superior de Ciências Sociais, diz que a rentabilidade da indústria do xisto nos Estados Unidos começa quando a cotação do petróleo atinge 80 dólares. Também é conhecido o fato de que pelo menos 50% das empresas que exploram xisto nos Estados Unidos são independentes. Lá basta ter uma terra e algo embaixo, que está liberado. Fura, cava o poço e o resto vai pro beleléu, inclusive a concorrência. O cálculo varia, mas está entre 4 e 6 milhões de poços exploratórios de xisto, uma indústria que alavancou a economia estadunidense injetando 800 bilhões nos últimos cinco anos. Porém, a exploração depende de financiamento dos bancos. E aí o negócio complica. Segundo o analista da Casey Research, Marin Katusa, desde 2008 o mercado corporativo do xisto aumentou sua dívida corporativa em US$150 bilhões.

“- Com 45 dólares o barril não é possível refinanciar a dívida, isso é uma má notícia para a indústria do xisto”, diz ele, numa nota publicada na Voz da Rússia, no final de 2014.

Ainda em dezembro as notícias para a indústria do xisto, que os estadunidenses consideram a revolução da energia barata e ao mesmo tempo quase a autossuficiência – os cálculos são de produção de 40% da produção de gás nos próximos 20 anos – pioraram.  Na edição da Revista Nature de dezembro, um estudo da Universidade do Texas apontava para uma redução das reservas do país. Simplesmente, o estudo desmente a versão otimista do xisto, com base na análise das quatro maiores reservas. Os pesquisadores da área de petróleo sabem muito bem que a produção do xisto decai muito rapidamente depois da primeira leva de óleo retirada. Cai pela metade. Ou seja, os pesquisadores da Universidade do Texas estão dizendo que em 2030 os Estados terão metade dos 18 bilhões de metros cúbicos, total das reservas divulgados oficialmente.

Risco iminente – a indústria do xisto não pagar empréstimos

As corporações petrolíferas não gostam de concorrentes. Quando uma empresa quis construir um oleoduto na Pensilvânia para tirar o monopólio da Standard Oil, de John Rockfeller, ele mandava jogar água fervendo nos trabalhadores que escavavam o oleoduto, das locomotivas que margeavam a construção. Ou seja, quebrar as pequenas concorrentes do gás de xisto, que certamente serão incorporadas logo em seguida, faz parte do jogo. Os sauditas também não gostam da concorrência do xisto, mas mesmo assim comunicaram aos russos, que a política de queda de preços vai continuar. A Rússia depende 97% do petróleo e gás para movimentar sua economia. Produz 10 milhões de toneladas de petróleo por dia e tem a maior reserva do gás do mundo – 45 trilhões de metros cúbicos. Os dois prejudicados, em seguida, são Irã e Venezuela. Se a indústria do xisto não paga os empréstimos aos bancos está formada a crise mundial. A oferta de petróleo aumenta, os preços continuam desabando. Nunca esquecendo: as petrolíferas também compram petróleo quando o preço está muito baixo. E se houver instabilidade nos países produtores, que possuem grandes reservas, quando alguns setores internos começam a pregar a privatização das empresas nacionais, quem ganhará? As quatro irmãs. Um trecho do trabalho do professor Marcelo Simas:

“-Nos anos 1990, com as fusões e aquisições da Exxon-Mobil, BP-Amoco, Arco, Elf-Total-Fine, Chevron-Texaco, Repsol-YPF e Conoco Philips as ‘majors’ voltaram a ganhar espaço no mercado devido à falta de tecnologia de alguns produtores para exploração de petróleo, além da exigência de abertura de mercados, desregulação e privatizações promovidas no mundo inteiro pelas ideias neoliberais de Margareth Thatcher e Ronald Reagan. As ideias foram introduzidas nos pacotes de assistência dos países em dificuldades que iam ao FMI e ao BIRD, para renegociar suas dívidas”.

Nesta época, Margareth Thatcher vendeu 51% das ações que o governo possuía na Brites Petróleo, desde que os ingleses, ainda na época de Wilson Churchill, entraram na Pérsia para explorar petróleo com a empresa então chamada Anglo Perdiam, com participação governamental. E ali permaneceram por 75 anos, incluindo o golpe que colocou o Xá Rezha Pavlevi no poder por 26 anos – até a queda em 1979.

Petróleo vai continuar dominando

Agora vamos à trama. É por demais conhecido que vivemos uma época de mudança climática e que as emissões de gás carbônico, o maior dos gases estufa, precisam ser reduzidas. Em 2012, elas atingiram 31,6 gigatoneladas. E até 2020, ou seja, daqui a cinco anos, não podem passar de 44 gigatoneladas, para que o mundo não sofra um aumento de dois graus centígrados na temperatura. São números oficiais da Agência Internacional de Energia, criada em 1974, logo após o embargo do petróleo realizado pelos árabes e que só tem 28 sócios. A mesma AIE considera que o consumo dos combustíveis fósseis precisa ser reduzido em 50% até 2050. Um número considerado irrealista pelas petrolíferas, conforme está registrado no relatório Panorama Energético Mundial, publicado há mais de 50 anos pela Exxon, a maior petrolífera do mundo, com lucro de US$40 bi em 2012.

“- O petróleo e outros combustíveis líquidos continuarão sendo a maior fonte de energia do mundo em 2040. O gás natural será o combustível com maior crescimento até 2040, com uma demanda crescente na ordem de 60%. Em 2040, 90% dos transportes globais será feito por combustíveis baseados em petróleo bruto, comparado a 95% nos dias de hoje. As emissões de CO2, relacionadas à energia global serão estabilizadas por volta de 2030, permanecendo inalteradas em 2040”.

A corporação deixa claro o seguinte: “considerar todos os aspectos da energia não é um exercício acadêmico para a ExxonMobil, porque investimos bilhões de dólares em projetos a cada ano com base nas previsões encontradas no Panorama Energético.” Vou acrescentar um adendo, agora, da Chevron:

“- O mundo já produziu um trilhão de barris de petróleo até agora e ao longo do século, cerca de dois trilhões de barris se espera sejam produzidos a partir de reservas provadas convencionais e não convencionais – xisto e areias betuminosas”.

Querem enterrar 10 bilhões de toneladas de carbono

No relatório de sustentabilidade da Shell de 2013 comecei a entender porque as petrolíferas continuarão extraindo petróleo e as emissões de CO2 serão “estabilizadas”. Muito simples: chama-se tecnologia CCS – carbon captured and storage, ou seja, captura e armazenamento do carbono no subsolo. Popularmente: enterrar a sujeira embaixo da terra, usando poços de óleo e gás vazios, aquíferos salinos embaixo do mar ou formações de leito de carvão. Mais isso não é o mais impressionante. Outro pesquisador da Escola Politécnica da UFRJ, Victor Paulo Peçanha Esteves, no trabalho intitulado “Política e regulação de captura e armazenamento geológico de carbono – desafios para o Brasil” registrou a informação: num relatório do G-8 de 2010 foram apontados que 80 projetos de CCS começam a operar entre 2015 e 2020 – 73 deles em países desenvolvidos. Entretanto, até 2050 são previstos 3.400 novos projetos de CCS, 65% em países em desenvolvimento. A Agência Internacional de Energia confirma que 15% do CO2 emitido será enterrado até 2050.

Quanto eles pretendem enterrar de CO2, eis a questão. Somente 10 bilhões de toneladas, isso mesmo, 10 gigatoneladas. O que pode acontecer com um poço de  milhão de toneladas de CO2 armazenado?

“- Quando um carboduto de alta pressão sofre um vazamento, a pressão irá cair rapidamente, desprendendo uma grande quantidade de energia. Essa energia irá fazer com que o solo acima do carboduto seja ejetado causando possíveis danos materiais e de vida. A dispersão se dá em forma de uma nuvem, que se move perto da superfície. A concentração de 15% do volume em CO2 leva a perda da consciência em menos de um minuto”, explica o pesquisador da Escola Politécnica.

Canadá inaugurou projeto de CCS

Um poço pode sofrer corrosão, defeitos de material, problemas na construção, tremores de terra, inundações subterrâneas, atividades humanas no entorno. A Shell, por exemplo, queria instalar um projeto para captura de 10 milhões de toneladas da planta de gaseificação de hidrogênio na Usina de Pernis, perto de Roterdã. O CO2 seria transportado por um carboduto de 20 km e injetado em dois campos vazios a 1.852 metros, sob a cidade de  Barendrecht. O projeto foi aprovado pelo governo central, pelo alto parlamento, mas a municipalidade vetou, e ele foi cancelado.

O primeiro projeto global de captura e armazenamento de carbono começou a funcionar no Canadá em outro do ano passado, na localidade de Estevan, província de Saskatchewan do Sul, numa usina termoelétrica movida a carvão com 110MW de potência. Vão capturar um milhão de toneladas por ano. Os Estados Unidos tem 1.266 usinas térmicas movidas a carvão, que é o combustível fóssil que mais emite CO2. A Noruega e o Reino Unido estão testando, desde 1996, usar um aquífero salino no Mar do Norte para enterrar carbono. Chama-se Utsira e tem capacidade para 42 gigatoneladas. O projeto pretende enterrar as emissões da Noruega, do Reino Unido e parte da Bélgica e da Alemanha.

O mercado do petróleo arde, além disso, os poderosos pretendem enterrar a sujeira explosiva, enquanto discutem as metas da Conferência do Clima em 2015.

Esse texto encontra-se www.cartamaior.com.br

______________________________________________________________

CEPEA ESTIMA CRESCIMENTO DE 2,8% DO AGRONEGÓCIO EM 2015

Ganhos de produtividade devem continuar sendo a alavanca do crescimento do setor – ressalvados os efeitos climáticos pouco previsíveis. A renda do setor deve ser influenciada por prováveis quedas de preços da soja, algodão e leite; laranja pode se recuperar e café e carnes, sustentar patamar elevado

Cepea, 09 – Em 2015, o Agronegócio pode ser o grande condicionante do desempenho da economia nacional. Representando 23% do PIB brasileiro, ele pode ser o único setor com crescimento mais expressivo, dado que muitos segmentos da indústria não conseguem avançar e os serviços estão em processo de exaustão. Estimativas do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, apontam que, no próximo ano, o agronegócio pode crescer 2,8%. Para 2014, o Cepea revisou para baixou a expectativa de crescimento; pesquisadores esperam, no muito, 2,6%, a serem obtidos com colaboração expressiva do “dentro da porteira”.

A obtenção de crescimento ao redor de 2,8%, segundo pesquisadores do Cepea, vai requerer que o agronegócio continue explorando seus ganhos de produtividade, sem depender apenas de impulsos da demanda. Na avaliação da equipe Cepea, dentro do País, o setor vai encontrar em 2015 um mercado interno estagnado ou em fraca expansão na melhor das hipóteses, resultado do provável aumento do desemprego e de desaceleração dos salários.

No front externo, perspectivas de menor liquidez e maiores juros internacionais indicam dólar mais valorizado e preços de commodities menores. Entre os produtos que podem perder valor em dólar estão soja e açúcar. Para o professor da Esalq/USP Geraldo Barros, coordenador do Cepea, uma característica dominante nos mercados em geral será a elevada volatilidade, decorrente das questões climáticas e também de fatores macroeconômicos.

O câmbio no mercado interno ainda é uma incógnita diante das indefinições quanto à atuação do Banco Central. Uma desvalorização do Real ajudaria o agronegócio, ao mesmo tempo em que dificultaria o controle da inflação. Já a tendência de queda dos preços do petróleo, além de contribuir para uma taxa menor de inflação, pode favorecer o agronegócio, já que o óleo diesel e outros agroquímicos produzidos a partir do petróleo tenderão a se tornar mais baratos. Contudo, seria prejudicada a perspectiva da produção nacional de petróleo, contextualizam os pesquisadores.

Ao tratar da produção, a equipe Cepea destaca o impacto, cada vez mais frequente, dos eventos climáticos extremos no Brasil e em outros grandes produtores agropecuários – com impactos inter-relacionados. Diante disso, os pesquisadores destacam a importância de se reforçar a política agrícola voltada para o financiamento e o seguro da renda agrícola. Conforme cálculos do professor Barros, para financiar insumos e investimentos, os produtores rurais requerem cerca de 95% do PIB do seu segmento (agropecuária), mas na safra 2014/15, o governo federal alocou o equivalente a cerca de 50% desse montante (R$ 156,1 bilhões). O complemento vem de recursos próprios e de outras fontes não oficiais. Quanto ao seguro rural, o professor destaca que vem ocorrendo crescimento exponencial desde meados da década de 2000, mas a abrangência ainda não chega a 10% da área cultivada, com grande concentração no Sul do País e nas culturas de grãos, particularmente na soja. Em relação à política de sustentação de preços em anos recentes, o coordenador do Cepea explica que tem sido localizada e/ou pontual, podendo adquirir relevância em casos específicos, apenas. Segundo o professor, estudos vêm mostrando graus decrescentes de apoio do governo ao agronegócio comparando-se ao quadro de algumas décadas atrás.

Perspectivas setoriais

Em 2015, o desempenho dos principais setores do agronegócio brasileiro tende a ser positivo. Segundo a equipe Cepea, os fundamentos não justificam animação, mas também rejeitam “choradeira”, pelo menos da maioria das atividades. Confira a síntese das perspectivas para alguns dos principais setores do agronegócio brasileiro. Para acessar a íntegra da primeira versão das Perspectivas Cepea, clique em:http://cepea.esalq.usp.br/pib/

Soja – pequeno aumento tanto da área quanto da produtividade deve gerar mais uma safra recorde, acima de 90 milhões de toneladas. O processamento interno e as exportações de soja em grão também devem ser históricos, assim como a produção e o consumo interno de farelo e de óleo de soja. Como também se estima oferta recorde na Argentina em 2015 e os Estados Unidos colheram a maior safra da sua história, os estoques mundiais devem aumentar, apesar do consumo também crescente. Na Bolsa de Chicago (CME Group), os preços estão na casa de US$ 10,00/bushel para os próximos três anos, pelo menos, o que significaria os menores valores desde a safra 2010/11. Levantamentos do Cepea neste início de dezembro apontam negócios para exportação pouco acima de US$ 23,00/sc de 60 kg, FOB Porto de Paranaguá, para todo o primeiro semestre de 2015, também um dos menores níveis desde 2010.

Milho – área cultivada na 1ª safra diminui, em favor principalmente da soja. Além dos preços vigentes no período de decisão da safra de verão, essa redução ocorre também devido às chuvas escassas no Sudeste e em parte do Centro-Oeste. Dados da Conab apontam que, no final de janeiro de 2015, haverá estoques na casa de 15,3 milhões de toneladas, o que equivaleria a 48% do que foi colhido na safra verão 2013/14. Estoques nestes níveis não devem permitir recuperações expressivas de preços. Somente algum fator que colabore para exportação bem acima de 20 milhões de toneladas por ano-safra pode mudar o cenário de preços. Porém, agentes não esperam que isso aconteça no curto prazo. Assim, novamente, recaem sobre a 2ª safra os principais fatores de impacto sobre os preços da temporada 2014/15. Com base na relação receita/custos, dados iniciais apontam para uma menor área cultivada e também para menor uso de tecnologias, comparativamente a 2013/15. Paralelamente, o fator clima também pode pesar sobre as estimativas.

Algodão – deve, novamente, perder espaço na temporada 2014/15. Desde meados de 2014, as cotações regionais estão abaixo do preço mínimo oficial; se isso não bastasse, dados do Cepea apontam situação apertada quando se comparam receitas e custos da nova temporada. No cenário mundial, os estoques de passagem devem atingir níveis recordes em 2015. Os contratos na ICE Futures para vencimento em 2015 operam nos menores valores desde que se iniciaram – o contrato Mar/15, por exemplo, começou a ser negociado em abr/12. O índice Cotlook A também pode ter seu menor preço – na casa de US$ 0,73/lp – desde a safra 2008/09, ano de crise da cotonicultura no mundo e, em especial, no Brasil.

Café – a forte estiagem reduziu consideravelmente a produção da atual temporada (2014/15): em torno de 10%. Para a safra 2015/16, produtores estimam nova baixa da oferta de arábica, com as lavouras ainda sob os efeitos da seca. Diferentemente, a produção de robusta tem contado com condições climáticas favoráveis e deve aumentar. Mesmo assim, os estoques nacionais e mundiais de café devem diminuir ainda mais no final do ciclo 2015/16. Paralelamente, espera-se avanço da demanda motivada pela recuperação econômica dos principais países consumidores de café. Sob este cenário, a perspectiva para 2015 é de preços firmes para as duas variedades, com alguma elevação frente a 2014 – bem distantes dos preços baixos de 2013.

Citros – em 2014, novamente, muitos produtores deixaram a atividade; houve também diminuição da área cultivada e, comumente, vê-se redução dos tratos culturais. O motivo é a sequência de anos de rentabilidade negativa, e a consequência, de curto prazo, deve ser menos laranjas produzidas em 2015/16. Os estoques de suco de laranja das indústrias também devem ter forte redução no ano que vem, fundamentando a perspectiva de preços maiores ao produtor. Caso melhore a rentabilidade do negócio, a redução de área com citros deve ser menos intensa que a verificada nos últimos anos e o grau de renovação e adensamento dos pomares tende a aumentar.

Sucroenergético – em situação “desfavorável” desde 2008, o setor enfrentou na safra que termina um agravamento do quadro. Mas, aos poucos, esse cenário deve ficar para trás. Representantes do setor esperam volta do diálogo com o governo federal e definição de uma política de longo prazo para o setor. Entre as ações aguardadas para o curto prazo, o destaque é para a volta da Cide sobre o preço da gasolina e a definição da sua magnitude. A lógica é que, face à gasolina mais cara, a competitividade do hidratado se eleva e, com isso, mais matéria-prima passa a ser alocada para este combustível. Por consequência, os preços do anidro e também do açúcar ganham algum impulso. Outro fundamento que justifica a expectativa de recuperação dos preços do setor vem do mercado internacional de açúcar. A partir de meados do segundo semestre, o superávit atual pode dar espaço a déficit, que seria suprido pela commodity brasileira. Além dessa demanda, o câmbio também deve reforçar a competitividade do produto nacional. No balanço, a expectativa para 2015 e de produção estável e, por enquanto, de preços apenas ligeiramente maiores.

Pecuária Bovina de Corte – a falta de chuva desde 2013 prejudica não só a engorda dos animais, mas também a taxa de prenhez e o desenvolvimento de bezerros e garrotes, que atravessaram períodos de baixa nutrição. O resultado aparece na queda tanto do número de animais ofertados para abate quanto do peso das carcaças. Essa menor oferta de carne, em 2014, justificou valorizações significativas em todos os elos da cadeia e, à medida que persista, tenderia a manter o nível dos preços. Do lado da demanda, é sabido que cotações elevadas inibem o consumo – especialmente num ano em que a atividade econômica deve ser bastante lenta –, mas não se aposta que o agregado chegue a diminuir comparativamente ao ano anterior. Ainda que a demanda não seja robusta, da perspectiva de preços, devem entrar na conta também as exportações, que sinalizam o enxugamento da já limitada oferta interna. A situação de grandes produtores internacionais bem como a continuidade do embargo de parte da comunidade internacional à Rússia devem favorecer as vendas da carne brasileira, mesmo que haja dúvidas sobre o comportamento do câmbio no mercado interno.

Suínos – como alguns avaliam, “2014 foi um ponto acima da curva” para a suinocultura. Para 2015, são esperados custos de produção um pouco maiores e preços domésticos do suíno semelhantes ou, dependendo do momento, um pouco abaixo dos níveis elevados de 2014. A formação desses preços se dará no contexto de aumento da produção face a avanço moderado da demanda interna e um pouco mais robusto das exportações – com colaboração, inclusive, do câmbio. Escaldados por crises, representantes deste setor esperam que 2015, um ano que requer “pé no chão”, não seja entendido pelos produtores como estímulo para aumento exagerado dos plantéis a ponto de desencadear nova crise em 2016/17.

Frango – 2014 não foi tão bom quanto para a suinocultura, mas seu balanço também é positivo. Para o novo ano, é previsto maior equilíbrio entre oferta e demanda, podendo resultar em preços maiores que os de 2014. A liderança brasileira nas exportações, que absorvem cerca de 30% da produção nacional, não sofre ameaças, devendo manter-se em marcha firme. Quanto ao consumo dos brasileiros, também se prevê algum avanço, sustentado principalmente pelo reajuste, ainda que mais moderado, do salário mínimo e pela demanda adicional gerada pela manutenção da carne bovina em patamares elevados. Pensando-se em custos de produção, muitos têm a expectativas de farelo de soja e milho a preços menores que os de 2014.

Leite – é um dos poucos setores que acenam, desde já, para redução dos preços em 2015. Em todo o segundo semestre de 2014, os preços do leite ao produtor estão, em termos nominais, bem abaixo dos praticados em 2013; na virada do ano, aproximam-se mesmo dos de 2011. No País, a produção anual de leite é sempre crescente, à taxa média de 5%, mas o crescimento em 2014 foi bem além, podendo ultrapassar os 10% nos estados mais representativos do setor (abrangidos pelo Icap-L/Cepea), o que ajuda a entender o nível das cotações na virada do ano. Dessa forma, são baixistas as expectativas de preços também para os primeiros meses de 2015, o que desestimularia a produção. Com isso, pode haver redução acentuada da oferta em junho-julho/15 (com banda de maio a agosto), período de entressafra. Naquele momento, os preços devem ter elevações consideráveis, mas pontuais, mas as retrações podem começar mais cedo. No balanço, o ano deve ser de desestímulo aos produtores, com muitos pequenos e “aventureiros” devendo sair da atividade, liquidando plantéis. O crescimento anual da produção seria, então, reduzido para 3 a 4% e, repetindo-se a bienalidade típica da pecuária leiteira, para 2016, seriam esperados estoques menores e tendência de reação dos preços mais rápida no período de pré-entressafra. Na vertente da demanda, o mais importante é a perspectiva de que o consumo interno dos principais lácteos manter-se-á crescente, ainda que a taxa menor que em 2014. De fato, demanda é importante para o escoamento dos derivados que estão sendo produzidos aceleradamente pelas indústrias – reflexo da captação elevada de matéria-prima.

PAPEL ESTRATÉGICO – O desempenho do agronegócio brasileiro impacta não apenas a quem trabalha diretamente no ou com o setor. Importante gerador de divisas estrangeiras – responde por 40% do faturamento das exportações brasileiras e grande responsável pelos superávits comerciais do País –, o agronegócio é que poderá abrir espaço para o crescimento dos demais setores dependentes de importações, portanto, das divisas que o agronegócio gerar. Além disso, o desempenho do setor é um dos principais influenciadores da inflação, posto que alimentos e bebidas representam 23% do IPCA. Como esse peso no custo de vida chega a 28% para os estratos mais pobres (e a 8,5% para os mais ricos), um bom desempenho do agronegócio (maior produção a preços estáveis ou menores graças a aumentos de produtividade) pode contribuir significativamente para garantir relativa continuidade da melhoria da distribuição de renda e da redução da pobreza. A própria eficácia das políticas de transferência de renda (como o Bolsa Família) e de valorização do salário mínimo depende de o custo de vida manter-se relativamente estável. “Em síntese, para que o Brasil consiga trazer a inflação para níveis mais próximos da meta oficial, para que possa continuar no caminho da redução da desigualdade e da pobreza e para que a economia possa sustentar algum crescimento em 2015, é muito importante que o agronegócio tenha algum crescimento razoável e que não crie dificuldades do lado da inflação, nem do lado das exportações”, conclui o professor Geraldo Barros.

Para mais informação, contate o Laboratório de Informação do Cepea:

(19) 3429 8836 / 8837 e cepea@usp.br

Anúncios
Esse post foi publicado em Assuntos Economicos. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s